Viagem de Negócios
Fabio Steinberg
Um jornalismo crítico e independente do setor
06
agosto
2017

O Mistério do Ministério do Turismo

escrito por Fabio Steinberg

Por que Alagoas ganhou do Ministério do Turismo as maiores verbas do país?

Nada contra o simpático Estado nordestino do Alagoas. Pelo contrário. Mas fica difícil entender a lógica de transferir com prioridade para seus municípios um repasse recorde de R$ 11,3 milhões. Isto representa 13% dos R$ 84,6 milhões distribuído a cidades brasileiras no primeiro semestre de 2017.

Será que é porque o titular da pasta nasceu e foi eleito deputado federal por Alagoas? Dificilmente é coincidência.

O mais curioso é que boa parte dessas dotações, generosas em tempos tão bicudos no orçamento do país, foram para municípios pouco conhecidos. De acordo com reportagens de O Globo e Folha de S. Paulo, Penedo, Coruripe, Feliz Deserto e Jequiá da Praia foram agraciados com um total de R$ 3,7 milhões.

Segundo a denúncia dos dois jornais, as cidades do Alagoas receberam mais dinheiro que 18 Estados brasileiros, incluídos aí polos turísticos tradicionais, como Rio e Pernambuco.

O município de Penedo, governado por um primo do atual Ministro, obteve este ano R$ 1,4 milhão em convênios –mais que os R$ 973 mil dados a São Paulo para reformar o Anhembi.

Uma tia do Ministro que comanda Feliz Deserto, povoado de 5 mil habitantes, foi agraciada com R$ 1,1 milhão para reformar uma praça e pavimentar ruas. Outro tio, em Coruripe, ganhou R$ 830 mil. A gestora de Jequiá da Praia, irmã do titular do Turismo, levou R$ 390 mil.

Não se trata de discutir se há ou não potencial turístico significativo nestes lugares. A verdadeira questão é por que outros destinos, em condições equivalentes ou até melhores, não receberam um mesmo tratamento prioritário.

Alagoas não é um caso isolado. Reflete uma prática que infelizmente virou rotina, e é hoje um dos maiores problemas do Ministério do Turismo. Falando claro: há uma absoluta falta de critério nas decisões tomadas. Elas não se baseiam em um planejamento consistente e de longo prazo. Nem em demandas mercadológicas. Tampouco se norteiam por alguma avaliação técnica séria. Ao contrário: são medidas movidas apenas para satisfazer interesses políticos imediatos do titular da vez.

O amor repentino e exacerbado por Alagoas é só mais uma demonstração de que o modelo de turismo oficial está falido no Brasil. Infelizmente, os pífios resultados já deram abundantes provas de equívoco da criação deste Ministério ao longo da sua existência. De tão conhecidas, nem é preciso mencionar.

Em 15 anos de existência, o órgão federal já trilhou um tortuoso caminho que inclui dez ocupantes, a maioria sem entender patavina do assunto, exceto na condição de turistas ocasionais.

O histórico registra que nenhum Ministro do Turismo esquentou a cadeira por muito tempo. Como pássaros migratórios, virou santuário provisório de políticos de segunda linhagem que buscam um mínimo de visibilidade pública enquanto sonham com voos mais ambiciosos. Por isto, na sua saída costumam deixar um rastro de incompetência e inapetência para a função. E como subproduto, um horrível gosto de frustração em todos que atuam no turismo.

Difícil a ausência de indignação por parte de tanta gente prejudicada por esta política equivocada e custosa. Eis aí o verdadeiro mistério do Ministério do Turismo.

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Fonte: Viagens & Negócios - turismo sem censura

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