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publicado em 25 de setembro de 2017 -  9h16

Bom dia, como posso te atrapalhar hoje?

Minascentro é temporariamente fechado para passar por obras de restauração. Produtores de eventos de BH pedem explicações, já que o setor produtivo não foi consultado.

Álvaro Arantes

Produtores de eventos de Belo Horizonte fizeram uma manifestação no último dia 14/9 para pedir explicações sobre o fechamento do Minascentro, na Região Centro-Sul de Belo Horizonte. O governo de Minas diz que obras de modernização serão realizadas no local, mas eles afirmam que não receberam informações sobre o tipo de reforma que será feita, nem o prazo que durará.

Com seus 33 mil metros quadrados de área construída, o espaço abriga cerca de 250 eventos por ano e seu fechamento causará sério prejuízo para BH, desde desemprego, até queda na arrecadação com o turismo de negócio.

Por meio de nota, o governo de Minas, via Companhia de Desenvolvimento Econômico de Minas Gerais (Codemig), confirmou o fechamento e disse que “a reforma é estruturante, motivo pelo qual há impossibilidade de se efetuá-la concomitantemente à realização de eventos”. Segundo a Codemig, serão realizadas intervenções no sistema hidráulico, de energia e de ar-condicionado, bem como no telhado, a partir de janeiro/2018.

Em reunião na Assembleia Legislativa de Minas Gerais, na sexta-feira (15), o diretor da Codemig, Marco Antônio Castello Branco, disse que o Minascentro precisa, urgentemente, de manutenção nas áreas elétrica e hidráulica. “O Corpo de Bombeiros já advertiu que poderá interditar as instalações se a situação não for corrigida. O Minascentro está caindo aos pedaços. Não se pode mais adiar a reforma”, disse.

Aí vemos a mão torta do Estado, que gosta de inaugurar, mas é incapaz de cuidar e preservar. O prédio que hoje abriga o Centro de Convenções foi idealizado no início do século XX, ou seja, há mais de 100 anos. Fosse o Estado sério e previdente, teria feito inspeções anuais ou de dois em dois, três em três anos e, assim, quaisquer danos ou deteriorações seriam detectadas em seu início, tornando simples, fácil e barata a solução. Mas quê, deixaram que chegasse ao ponto de cair aos pedaços...

 Minascentro: um ícone na paisagem belo-horizontina

Incapaz de prevenir desastres, o Estado é igualmente incapaz de planejar as suas maldades. As obras, que devem começar em outubro, já acarretaram o cancelamento de diversos eventos que estavam programados para o local. Ou seja, os produtores de eventos são vítimas de insegurança jurídica total.

 Érica Drumond

Para Érica Drumond, presidente da Associação Brasileira da Indústria dos Hotéis em Minas Gerais (ABIH/mg), o espaço pode ser reformado sem a paralisação completa de suas atividades. “Reconhecemos que existem deficiências nas instalações do prédio, mas são manutenções simples que podem ser feitas com o Minascentro em pleno funcionamento. Não precisa fechar”, diz Érica.

Segundo a presidente da ABIH/mg, a agenda do espaço já estava fechada para 2018. Porém, após o anúncio do fechamento do Minascentro, empresários pensam em levar os eventos para fora de BH, prejudicando o turismo de negócios na capital. “Fechar o Minascentro é a morte do setor de turismo em BH, uma cidade que tem essa vocação e é conhecida por isso. Estima-se que, com a parada, a capital receba cerca de 10 mil pessoas a menos”, conta.

Ninguém questiona que as reformas são necessárias, mas, em primeiro lugar, deveriam ser melhor programadas e, em segundo lugar, poderiam ser realizadas sem o fechamento do espaço como um todo. O Royal Palm Plaza e o Copacabana Palace, por exemplo, fizeram mega-reformas, sem parar em nenhum momento.

O alerta baiano

Em 2015, a Bahiatursa, superintendência estadual de fomento ao turismo, afirmou que o Centro de Convenções da Bahia seria fechado para a realização de obras emergenciais. O então secretário do Turismo, Nelson Pelegrino, informou que as obras seriam iniciadas em agosto e durariam seis meses, ou seja, estariam concluídas no início de 2016.

Decorridos dois anos, o CCB permanece fechado e, pior, abandonado. No dia 20 de agosto deste ano, ladrões foram presos pela polícia roubando aparelhos de ar-condicionado do local.

Desde que o Centro de Convenções da Bahia (CCB) teve suas atividades interrompidas, Salvador caiu da terceira para a décima colocação no ranking de cidades brasileiras que sediam eventos internacionais credenciados pela ICCA (International Congress and Convention Association).

O presidente do Conselho Baiano de Turismo, Roberto Duran, conta que o turismo de congressos é o que dá sustentação ao setor. Desde o fechamento do CCB, cerca de R$ 200 milhões por ano deixaram de ser arrecadados. “Como a construção de um novo Centro de Convenções não acontecerá nos próximos três anos, o impacto negativo total deverá ser de R$ 1,5 bilhão”, estimou Duran.

Ainda segundo ele, nos últimos dois anos, 20 hotéis e cerca de 3 mil bares e restaurantes fecharam as portas na capital, o que provocou o fechamento de cerca de 30 mil postos de trabalho. Para Duran, a crise que vive o setor seria menor caso o CCB estivesse funcionando.

Privatização X Concessão

O diretor da Codemig, Marco Antônio Castello Branco, disse que a intenção do governo era repassar o Minascentro para o setor privado, por meio de concessão. A presidente da ABIH/mg aprova a ideia de privatização: “Desde que haja um edital que beneficie o turismo, a proposta é válida. O setor privado tem mais competência que o Estado para gerir e captar eventos”, ressalta.

Entretanto, foram realizadas duas licitações (janeiro e agosto deste ano), uma apenas para o Minascentro e depois outra incluindo também o Expominas. Em ambas, não houve interesse dos investidores. No caso da primeira licitação, a principal exigência do governo era que os concessionários investissem um mínimo de R$ 15 milhões para a reforma dos equipamentos de ar condicionado, infraestrutura elétrica, telhado e cadeiras. Justamente a reforma que, agora, será assumida pelo governo.

Érica esclarece que o governo não conseguiu interessados na área porque a exigência de investimento era muito alta. “Nas duas primeiras licitações, pediram R$ 30 milhões e R$ 20 milhões, respectivamente, mas agora eles querem R$15 milhões. Ou seja, não havia o pleno interesse em seguir com a proposta”, comenta.

Solução de verdade, sem os entraves ideológicos típicos daqueles que hoje governam Minas Gerais, seria privatizar o Minascentro sem qualquer exigência prévia de investimento. O que o poder público pode e deve exigir são condições adequadas de funcionamento. E só.

Já uma decisão digna de estadista, com visão de futuro, seria a criação (ou o incentivo à criação) de um novo centro de convenções para a cidade, capaz de abrigar eventos de grande porte.

Em julho de 2015, a lei que viabilizaria o Centro de Convenções de Belo Horizonte, no bairro União, foi sancionada pelo então prefeito Marcio Lacerda. Só que o empreendimento não saiu do papel.

Infelizmente, terminamos como começamos: “Bom dia. Como posso te atrapalhar hoje?”.

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