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publicado em 09 de fevereiro de 2017 -  9h40

EDITORIAL - Anomia: ausência de valores e exemplos

O estado de anomia em que se transformou o Espírito Santo é fruto da ausência de, ou pior, do rechaço, do deboche, do vilipêndio aos valores necessários à convivência harmônica em uma sociedade complexa. Tão ou mais importante, é fruto, igualmente, dos péssimos exemplos vindos de cima, daqueles que deveriam ser modelos em quem se espelhar, seja na política, nos negócios, na classe artística.

Sergio Junqueira Arantes

Recebi no celular um comunicado do presidente do Convention & Visitors Bureau do Espírito Santo, meu amigo Paulo Renato Fonseca Júnior. Ele expressa a sua preocupação com a insegurança que assola seu estado, com as vidas perdidas, com as perdas da economia em geral, mas, especialmente, como é de seu mister, com o impacto direto e forte no Turismo do estado. Mais de 20% de cancelamentos de reservas por dia. Ele exige bom senso de todo os envolvidos e clama por rapidez na resolução da situação caótica em que se encontra o estado.

Sensibilizado por tudo o que tenho visto na TV e motivado pelo clamor de um caríssimo amigo, fui empurrado a tentar lançar luzes nesse breu em que estamos todos envolvidos, não só os queridos capixabas.

ANOMIA – ÉTICA - MORAL

O estado de anomia em que se transformou o Espírito Santo é fruto da ausência de, ou pior, do rechaço, do deboche, do vilipêndio aos valores necessários à convivência harmônica em uma sociedade complexa. Tão ou mais importante, é fruto, igualmente, dos péssimos exemplos vindos de cima, daqueles que deveriam ser modelos em quem se espelhar, seja na política, nos negócios, na classe artística.

Apesar de este conceito ser hoje praticamente uma aberração, ouso dizer que são os valores MORAIS os que mais escasseiam, seguidos pelos valores éticos.

A anomia é um conceito que identifica um estado social de ausência total de regras e normas, onde os indivíduos desconsideram o controle social que rege determinada sociedade, impondo a anarquia nas relações sociais e recusando-se a seguir as referências sociais e morais estabelecidas por uma ordem comum. Do ponto de vista teológico, a anomia consiste no descumprimento dos preceitos religiosos e das chamadas “leis de Deus”.

Ao nos vermos imersos em um estado de anomia, resta tentar descobrir como se rompem os laços que mantém o equilíbrio em uma sociedade, desfazendo o que fazia dela uma comunidade que comunga dos mesmos valores.

Ao lado da família, a religião é uma das principais entidades que ajudam a moldar os valores morais de uma sociedade. Os valores religiosos pregam o que sua doutrina entende como sendo "certo", "errado", "bem" ou "mal", oferecendo ao homem os pilares necessários para fazer a distinção e moldar esses conceitos de acordo com as necessidades coletivas. Ocorre que, desde o Iluminismo, os ditames religiosos vêm perdendo importância e relevância, vencidos pela laicidade e pelo materialismo, pelo multiculturalismo e pelo relativismo cultural.

No contexto filosófico, ética e moral possuem diferentes significados. A ética está associada ao estudo fundamentado dos valores morais que orientam o comportamento humano em sociedade, enquanto a moral são os costumes, regras, tabus e convenções estabelecidos por cada sociedade. Normalmente, os valores morais começam a ser transmitidos para as pessoas nos seus primeiros anos de vida, através do convívio familiar. Com o passar do tempo, o indivíduo vai definindo seus próprios valores, a partir de observações e experiências obtidas na vida social.

A palavra “ética” vem do Grego “ethos” que significa “modo de ser” ou “caráter”. Já a palavra “moral” tem origem no termo latino “morales” que significa “relativo aos costumes”. No sentido prático, a finalidade da ética e da moral é muito semelhante. São ambas responsáveis por construir as bases que vão guiar a conduta do homem, determinando o seu caráter, altruísmo e virtudes, e por ensinar a melhor forma de agir e de se comportar em sociedade.

Os valores morais são variáveis, podendo divergir entre sociedades ou grupos sociais diferentes. Na vida em sociedade, os valores morais são essenciais, pois ditam o comportamento, a forma de interação entre os membros daquele grupo e a ordem do cotidiano social.

Já os valores éticos são princípios que não se limitam apenas às normas, costumes e tradições culturais de uma sociedade (valores morais), mas também procuram se focar nas características compreendidas como essenciais para o melhor modo de viver ou agir em sociedade.

BRASIL COLAPSADO

Quando alguém está faminto ou em perigo de vida, todo esse arcabouço filosófico e civilizacional entra em colapso. Quando vemos presidiários cortando pescoços de membros de outra facção, estamos diante de atitudes de quem já estava colapsado, enjaulado, apartado.

Mas o que estamos assistindo no Espírito Santo é muito mais grave, pois não se trata de desvios de uma minoria empobrecida ou desvarios de uma súcia marginalizada, mas um motim, uma insurreição de cidadãos, em princípio honestos e trabalhadores, que se sentiram liberados para o saque, o roubo, o assassinato graças à greve ilegal e absurda de policiais militares.

Isso indica ser muito mais tênue, fina, delgada a camada de verniz que recobre o selvagem natural que nos habita a todos, apenas anestesiado mediante contínuas e maciças doses de (baixa) cultura e (parca) filosofia.

Os eventos recentes no Espírito Santo não deveriam, no entanto, nos surpreender tanto. Afinal, o selvagem não anda tão às escondidas em nosso cotidiano aparentemente regulado e normatizado, apenas põe as suas garras de fora de maneira esparsa, simulada, não concentrada nem tão explícita.

São abundantes na internet fotos de saques a mercadorias espalhadas em rodovias depois de acidentes com caminhões. Há uma, a mais significativa de todas, em que o motorista ainda está ao volante, com as pernas prensadas na lataria, mas ainda vivo, enquanto a malta ensandecida saqueia sua mercadoria.

Nada poderia ter explicitado melhor a diferença entre um povo que cultua valores civilizacionais, de outro que nem sabe da sua existência, do que a surpresa embasbacada diante da atitude dos torcedores japoneses ao final de jogos da sua seleção na Copa do Mundo de 2014, no Brasil. Centenas deles, em equipe, com sacos trazidos do hotel, juntavam todo o lixo que haviam descartado durante a partida, deixando o local impecavelmente limpo. Jamais vimos nada igual, nem nos nossos campos, nem nas nossas praias, nem nas nossas ruas que, depois, alagam.

A selvageria, no entanto, não se restringe a presidiários barbarizados, saqueadores eventuais, nem a porcos nos estádios, nas ruas ou nos réveillons nas praias.

Dia após dia, jornais, revistas, TVs, blogs nos revelam que aqueles que nos governam estão longe de nos representarem e muito perto de serem meros serviçais de poderosos interesses. Um lamaçal fétido é-nos mostrado a cada dia, uma pocilga asquerosa é-nos apresentada a cada manhã, uma e mais uma e mais outra traição à nossa confiança é-nos revelada a cada noite antes de irmos dormir.

Essa cocaína moral, essa heroína ética, esse crack civilizacional nos são ministrados cotidianamente, em doses nada homeopáticas, na verdade cavalares.

De tudo o que vi e li nos últimos anos a respeito de corrupção, o que mais me surpreendeu foi a foto de uma embalagem de carne encontrada pela PF no freezer do ex-governador Sérgio Cabral. Era um pedaço de carne que media um palmo. Talvez desse para uma, no máximo duas pessoas. Havia uma etiqueta de preço: R$ 1.780,00...

O QUE FAZER?

Bem, sendo sincero, acho que não deveria ser sincero, pois a mesma sinceridade que me obrigou a esboçar esse diagnóstico cruel acima descrito, me obriga a ser exageradamente cético em relação aos remédios a serem ministrados e à capacidade de recuperação desse paciente vítima de metástase generalizada.

É difícil responder à pergunta quando lemos o seguinte nos jornais: “Ao pedir autorização do Supremo Tribunal Federal para a instauração de inquérito destinado a apurar o crime de embaraço à Operação Lava Jato, supostamente cometido pelo ex-presidente José Sarney e pelos senadores Renan Calheiros e Romero Jucá, o procurador-geral da República, Rodrigo Janot, se refere ao grupo como ´quadrilha´ e ´organização criminosa´”.

Como mudar um povo? Uma cultura? Uma superestrutura carcomida e viciada em privilégios?

Muito difícil... Mas não impossível!

A primeira pergunta que deve ser feita por quem pretende encarar essa difícil tarefa deve ser: “Que país queremos deixar aos nossos filhos?”

Um país que estigmatiza a alta cultura, taxando-a de elitista, e valoriza a baixa cultura, que estimula crianças a se roçarem em danças eróticas?

Um país que vilipendia os valores religiosos, taxando-os de moralistas, e deprecia a família, como se não fosse ela a base da formação de uma criança?

Um país que critica quem quer punir pichadores, como se isso fosse arte, sem se perguntar se esses “artistas” pediram autorização aos donos dos muros e fachadas?

Um país que, sistematicamente, protege marginais, dizendo que são vítimas da sociedade, e ataca policiais, como se todos abusassem de suas prerrogativas?

Um país sem valores, sem tradição, sem compromissos, sem ética, sem moral, sem rumo nem prumo?

Pois é, agora que os policiais entraram em greve, ninguém se lembrou de chamar a turma dos Direitos Humanos para colocar ordem na bagunça...

O policial pode reclamar quando ganha mal, mas não pode fazer greve, não pode desassistir a população. Em casos como esse, sempre me surge a dúvida: esse grevista foi obrigado a trabalhar nesse serviço? Ele é proibido de mudar de profissão?

O caso específico do caos instalado no Espírito Santo, meu caro amigo Paulo Renato, não me parece difícil de ser solucionado, e estou certo de que, diante da gravidade dos fatos, o será em breve. Certamente será algo paliativo, mas que colocará água na fornalha.

Meu ceticismo é quanto à viabilidade de reverter a onda de negação sistemática dos valores éticos e morais que fazem de uma sociedade uma comunidade. Infelizmente, hoje são os modismos da baixa cultura que regem a sociedade. Os valores tradicionais são vítimas de zombaria e menosprezo, tidos como ultrapassados, retrógrados, reacionários, velharia...

JANELAS QUEBRADAS

Quem quiser ter alguma esperança quanto ao nosso futuro deve conhecer e aplicar a “Teoria das Janelas Quebradas”.

No final da década de 60, psicólogos da universidade de Stanford fizeram uma curiosa experiência. Dois automóveis idênticos foram abandonados em diferentes bairros de Nova York, um em um bairro nobre, outro na periferia. O carro que estava na periferia foi rapidamente depredado, roubado e as peças que não serviam para venda foram destruídas. O carro que estava na área nobre permaneceu intacto. Mas isso já era esperado. O que eles queriam mesmo comprovar era outro fenômeno. Para isso, quebraram as janelas do carro que estava abandonado no bairro rico e o resultado foi o mesmo que aconteceu na periferia: o carro passou a ser objeto de furto e destruição. Com isso, os pesquisadores chegaram à conclusão de que o problema da criminalidade não estava na pobreza, mas sim no desenvolvimento das relações sociais e na natureza humana.

As bases teóricas daquela constatação vieram com a “Teoria das Janelas Quebradas”, desenvolvida na escola de Chicago por James Q. Wilson e George Kelling. Se uma janela de um edifício for quebrada e não for rapidamente consertada, a tendência é que vândalos passem a arremessar pedras nas outras janelas e resolvam ocupar o edifício e destruí-lo. Isso significa que, assim como gentileza gera gentileza, desordem gera desordem, que um comportamento antissocial pode dar origem a vários delitos. Por isso, qualquer ato desordeiro, por mais que pareça insignificante, deve ser reprimido. Do contrário, pode ser difusor de inúmeros outros crimes mais graves.

Ou seja, temos de focar no desenvolvimento, aprimoramento, aperfeiçoamento das relações sociais e na reabilitação dos valores capazes de controlar os impulsos da natureza humana. Devemos rever nossa ojeriza a tudo o que se refira a tradição, religião, família, alta cultura. Precisamos cultuar, valorizar, incensar tudo aquilo que contribua para fazer de uma sociedade algo que se assemelhe a uma comunidade que comungue os valores que lhe dão sustentação.

Avante, capixabas! Vocês têm um ótimo governador, com coragem para resistir a chantagens que quebrariam o estado.

Vamos torcer para que o Brasil seja, de fato, passado a limpo e, então, comecemos a trilhar um novo caminho, em que pichação não será arte nem janelas fiquem indefinidamente sem conserto.

SERGIO JUNQUEIRA ARANTES, CEM
Publisher do Portal Eventos e da Revista Eventos
Diretor e fundador da Academia Brasileira de Eventos e Turismo
Diretor do Prêmio Caio e do Fórum Eventos
ÁLVARO JUNQUEIRA DE ARANTES FILHO
Sociólogo e jornalista


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