Arquitetura, Cenografia e Design
Leila Malvezzi Bueno
A real viagem do descobrimento não consiste em procurar novas paisagens, mas em ter um novo olhar
Marcel Proust
12
março
2019

As janelas da Arquitetura Efêmera

“Quem consolida os efeitos de um espaço, sejam eles opressivos ou libertários é a prática humana”

 - Pedro da Luz Moreira - Arquiteto

Criamos inúmeros espaços cenográficos através da arquitetura efêmera e apesar das camadas na qual atualmente se reverberam, é através do experimento que ela se consolida (ou não, já não sei mais). Mas antes de nos aprofundarmos nesses questionamentos, vale a pena lembrar o que significa esse termo: efêmero. Palavra de origem grega (ephémeros) que representa algo de curta duração, caráter temporário. Trazendo isso para o nosso universo, a arquitetura efêmera é aquela com data para terminar. Ou seja, tem começo, meio e fim. Não por acaso, a cenografia para eventos corporativos tem ficado cada vez mais complexa e desafiadora. Nós temos um tempo determinado para surpreender.

Então, começo esse artigo fazendo aqui um convite à reflexão sobre as responsabilidades projetuais da cenografia mediante as janelas virtuais. O poder da criação na arquitetura efêmera está diretamente ligado à experiência que ela conseguirá causar, além da utilização como uma ferramenta de estímulo aos 5 sentidos, é também uma ferramenta de transformação da percepção do usuário.

Acontece que em tempos midiáticos, as intervenções e ocupações tridimensionais estão reverberando para as bidimensionais e nossas responsabilidades projetuais já ganharam novos encaminhamentos. Talvez a ordem de importância também está em processo de mudança: o experimento tem efeito na postagem e não na experiência propriamente dita. Ou seja, precisamos nos preocupar em como o nosso trabalho será representado também através das redes sociais, por exemplo.

Todas as “janelas”’que estamos impactando nos trazem um comprometimento ainda maior, já que usuário efetivo do experimento e público contemplativo através dos smartphones se fundem, canalizando ao criativo a grande missão de atingir e transformar percepções por vários canais e janelas. Não podemos mais ignorar o poder dessas tecnologias, mas sim, nos apropriarmos delas e utilizá-las ao nosso favor.

Se apossar da semiótica como ferramenta poderá ser uma boa estratégia para atingirmos outras formas de impactos sensoriais, já que o foco está diretamente na “ imagem” ou diríamos “no símbolo”?

Temos desenvolvido ultimamente espaços exclusivos para captação de imagens a serem postadas: ESPAÇO INSTAGRAMÁVEL, que já vem solicitado no briefing. Como o limite que toda reprodução impõe, da redução do pensamento da jornada criativa, o produto final de uma cenografia normalmente também sofre essa redução. Afinal, muitas vezes o que se vê, não representa todo o caminho percorrido pela criação na concepção da ideia, de todos os esboços, pensamentos, discussões ou do projeto com suas funcionalidades. Tem muito desenvolvimento, pesquisa, apropriação e suor na concepção de um projeto arquitetônico, principalmente o efêmero que sofre com uma redução bastante impactante de tempo e prazos.

Por isso, eu acredito tanto que vale a pena refletirmos e abrirmos discussões efetivas sobre as formas e métodos projetuais para essa nova demanda, já que o resultado efetivo vai para uma janela passiva e estática, na qual o ápice do experimento está com quem olha e não efetivamente quem vivencia e experimenta.

São os novos tempos! Um momento de desenvolver diferentes ângulos de enxergar e arriscar novas formas de fazer as coisas acontecerem. Que venha o futuro, que pelo que estou entendendo, é hoje e agora.

Leila Bueno é arquiteta, sócia-diretora comercial na BUENO Arquitetura Cenográfica e presidente da ABRAFEC (Associação Brasileira de Cenografia).

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