01
novembro
2017

Co-criação no trabalho: um exercício diário de empatia

escrito por

“Questionar nossas crenças não é fácil, mas é o primeiro passo na formação de crenças novas e talvez mais acertadas.” (Duncan J. Watts)

Estamos vivendo em uma sociedade corporativa contemporânea, com apresentação de formatos e posturas descoladas, discursos sobre ideias disruptivas, conectadas e com a inovação como a palavra de ordem. A co-criação é uma metodologia compatível como ferramenta de solda de tudo isso.

Vale a pena ressaltar aqui, que uma corporação (que significa “corpo” em latim), tem (ou deveria ter) um funcionamento sistêmico e interdependente assim como o corpo, além de ser também um organismo vivo e em movimento. Considerar que esse organismo é composto por pessoas totalmente diferentes, multidisciplinares, com histórias e vivências completamente distintas. Sem falar o potencial do imaginário coletivo gerado por todas as pessoas envolvidas nessa cadeia.

Mas, o quanto efetivamente estamos preparados para co-criar utilizando esse arsenal de potencialidades e diversidades? Conversei com dois profissionais que atuam em mercados bastante distintos, questionando se utilizam essa metodologia da co-criação ou não, no dia a dia de trabalho.

Mirela Vasquez Barbosa, arquiteta e minha amiga desde a adolescência, trabalha no setor público e acredita que a co-criação precisa partir da liderança. “É necessário que exista compromisso e compatibilidade de ideias, conceitos e metas entre os envolvidos”, comenta. Questionei se ela acredita então que a co-criação só acontece em grupos homogêneos e se existiriam desdobramentos com inovação nesse padrão. Mirela ressaltou a necessidade de indivíduos movidos pelos mesmos objetivos, num ambiente onde não haja disputa de poder ou cargos. “Acredito que seja possível sim a criação de um grupo heterogêneo, porém a não clareza desse objetivo inviabilizaria qualquer atuação com o método da co-criação” finaliza.

Marcelo Politi, CEO na empresa Nove Eventos e chefe de cozinha por hobby, já utiliza a co-criação com sua equipe no dia a dia e garante que todos precisam estar envolvidos na causa. Enfatizou a aplicação dessa metodologia num projeto recém idealizado, que só aconteceu graças a co-criação: o cooking show NA COZINHA DO POLITI. Para Marcelo, precisa existir um objetivo claro para todos os envolvidos e nesse caso específico, além de indivíduos, a co-criação também foi feita entre as empresas. “As vantagens e benefícios para todos os stakeholders envolvidos no projeto precisam estar estampadas em todas as etapas e decisões, principalmente e, acima de tudo, o ganho precisa ser coletivo para todos usufruírem dos resultados”. Além disso, garante que sem a co-criação esse projeto nem seria possível. “Juntar forças, ideias, capital intelectual, conhecimentos multidisciplinares e recursos transformou esse projeto em realidade, já que sozinho eu não conseguiria”, completa.

Na BUENO Arquitetura Cenográfica, empresa de cenografia, aplicamos a co-criação com nossa equipe em várias etapas do processo de cada projeto e na própria gestão, há pelo menos 12 anos, desde que adotamos uma gestão participativa. Mas a grande inovação é a aplicação da co-criação com os nossos clientes. E essa co-criação, aplicada ao projeto, é muito dinâmica e rica, porque tem começo, meio e fim. Além de estimular a criatividade, promove o despertar das convicções arraigadas, contemplando a diversidade e promovendo a composição de grupos interdisciplinares. Justamente nesse ponto que acredito ser relevante abordar sobre nossas crenças (lá no início, com a citação de Watts) para discorrer sobre co-criação, caso contrário, será mais um termo aplicado de forma banalizada.

Nos três exemplos, foram citados objetivo e clareza no entendimento desse propósito a ser alcançado, mas acima de tudo, precisa ter o desejar! Antes de mais nada, co-criar é acreditar! É ter crença nas pessoas envolvidas, é considerar possível, é querer fazer acontecer, é praticar a empatia durante o processo, é confiar nas pessoas envolvidas e entender que apesar de sermos individualmente completos, no processo da co-criação, somos fragmentos de um todo e esse todo só é possível, com a junção das partes, para que todos, possam usufruir dos melhores resultados.

Para co-criar é preciso deixar a vaidade de lado, enaltecer as diferenças, buscar e utilizar habilidades, usufruir da sensibilidade das partes, promover a composição dessas partes, lapidar em conjunto, construir, desmanchar tudo se for preciso, reconstruir, avaliar, aplaudir, e principalmente, se divertir ao perceber que o caminho a ser percorrido pode ser tão prazeroso quanto o destino. Tenho visto e vivido muito isso, vale a pena, meus amigos.

Leila Bueno é arquiteta e sócia-diretora na BUENO Arquitetura Cenográfica * 


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