DIVERSIDADE CRIATIVA
Ronaldo Ferreira Júnior
O final feliz vem depois que você fez o seu trabalho
Viola Davis
12
julho
2021

Vamos falar sobre sexo?

Vamos falar sobre sexo?

Sexo é um assunto que está sempre presente nas rodas de conversa informais entre amigos, seja no ambiente social ou corporativo. Este tema é tão relevante e mexe tanto com a gente, que alguns se arriscam até a afirmar que ele move o mundo. E, mesmo sendo tão comum, falar sobre sexo de forma responsável ainda é muito delicado.

Historicamente o assunto é tabu, um tema a ser evitado. Mas hoje, com a constante exposição das pessoas, de suas vidas, gostos e escolhas pessoais, devemos questionar os padrões normalizados de pensar sexualidade. Afinal, sexo é algo que mexe com nossos valores pessoais, influencia o nosso comportamento, nossos relacionamentos, impactando inclusive nossa performance profissional.

Vamos Falar sobre sexo? Live Mkt
Pensei muito antes de escrever este texto, pois a ideia não era criar uma espécie de bula e sim compartilhar uma reflexão sobre o assunto. Se o sexo tem o poder de nos mover, por que não ampliar este poder para outras dimensões?

E nestes tempos de celebrar a diversidade com seus diferentes biotipos, orientações sexuais, identidades de gênero entre tantas outras características, é necessário ter a coragem de entender os impactos reais deste substantivo de 4 letras. É preciso mapear todas as lições positivas que ele traz, e quais impactos causa em nossa vida pessoal e profissional.

Educação sexual

Para os especialistas, é em casa que devemos começar falar sobre sexo. Nascemos curiosos e ávidos a perguntar sobre tudo, mas quando o assunto é sexo, logo somos desencorajados a discutir sobre o tema. Manifestar nossas dúvidas constrange os adultos e dá a impressão de que estamos falando de algo feio, errado, que “não é natural”. A escola também evitou o assunto durante anos e, portanto, não conseguiu nos proteger de vários sofrimentos e vieses.

O resultado desta omissão é que, ao não encararmos de frente este assunto, deixamos de discutir e ressignificar nosso entendimento ao longo do tempo. Não soubemos evitar inúmeras gestações na adolescência, não alertamos os jovens sobre DSTs, não conversamos sobre as diferenças entre a identidade de gênero e a orientação sexual e ignoramos pontos fundamentais sobre nós mesmos. Isso nos fragilizou e ao mesmo tempo, fortaleceu nossos preconceitos que reforçaram a violência e opressão a tudo que desconhecemos.

A OMS - Organização Mundial de Saúde, alerta que onde a educação sexual é levada a sério, a iniciação sexual é postergada. Ao conhecer, fazer trocas e entender sobre o assunto, os jovens desenvolvem mais autonomia e discernimento para definir como, com quem e quando devem iniciar a sua vida sexual. E por este papo não acontecer em muitas famílias ou escolas, não há sensibilização sobre a importância do respeito ao outro e a si mesmo, assim, a maioria das pessoas chega ao mundo adulto e, consequentemente, ao mundo corporativo cheia de vieses, e enfrenta dificuldades em lidar com quem é diferente do que lhe foi mostrado como modelo do “normal”.

Ambiente corporativo

Há um consenso de que um adulto deveria entender que toda forma de amor é melhor que o desamor. Deveria estar apto a livrar-se da armadilha de querer controlar a vida sexual alheia. Deveria entender que qualquer tipo de relacionamento consensual é legal e muito bem-vindo e não deve ser considerado como um problema a ser resolvido. As novas gerações que chegam no mercado de trabalho, buscam espaços seguros e relações de respeito e ética – onde o bem-estar e prazer alheio não são questionados. Elas acreditam em uma sociedade mais informal, com menos regras e baseada em relações. E, neste sentido, o futuro pode ser libertador.

Fomos educados a entender que toda forma de amor, todo corpo ou todo desejo fora do “padrão” deveria ser evitado, apagado. A questão é: que padrão é este? Se somos todos tão diferentes, como conseguimos estabelecer padrões tão rígidos para delimitar nossas vontades e desejos?

Hoje o conhecimento nos mostra que este padrão sexual estabelecido, foi imposto por critérios sociais, políticos e econômicos, e não pelos desejos naturais das pessoas. Fomos motivados a acreditar e organizar uma sociedade “perfeita “para os padrões. E, assim, de alguma maneira, conhecemos a monogamia, o casamento heterossexual, o celibato e várias outras instituições que ainda organizam a clássica sociedade contemporânea. Será que estes são os únicos modelos que fazem sentido?

Somos padrões de quê?

Para mostrar o quanto somos, pensamos e agimos de forma diferente um dos outros, é só observar o comportamento das pessoas quando estão nas redes sociais. Uma pesquisa interna do app Ashley Madison, que tem no Brasil cerca de 12,5 milhões de homens e mulheres casados interessados em buscar aventuras fora de casa, mostra que desde o início da Pandemia, o aplicativo recebeu 1,7 milhão de novos membros no país que se identificam com o slogan: “A vida é curta. Arranje um caso”. Você pode estranhar e até não concordar, mas eles seguem ganhando 20 mil novos membros por dia.

O fato é que somos diferentes. E quando aceitamos isso, conseguimos nos livrar destes padrões irreais e parar, por exemplo, de sexualizar a figura de uma pessoa negra ou de enxergar uma pessoa trans como um exótico objeto de desejo, ou então de rotular as mulheres como subordinadas aos desejos masculinos.

Mas, para que isso aconteça, temos que falar mais e de forma mais construtiva sobre como o sexo e os padrões andam influenciando nossas escolhas. Quando não falamos, não questionamos e por isso não ressignificamos as coisas, apoiamos o que acontece de forma passiva, somos mantenedores de padrões comportamentais que excluem e afetam negativamente as outras pessoas.

Os (d)efeitos de não falar sobre sexo

A pesquisa “Hostilidade, silêncio e omissão”, realizada pelo GP – Grupo de Planejamento, revelou que 97% dos colaboradores afirmam que há assédio sexual no ambiente das agências e empresas de comunicação. 86% das mulheres e 76% dos homens afirmam ter sofrido assédio moral e 51% das mulheres e 9% dos homens afirmam ter sofrido assédio sexual. Assédio é um tema sensível para as empresas porque adoece o colaborador, diminui a produtividade das equipes e impacta diretamente nos resultados do negócio.

O Grupo Gay da Bahia informa que, a cada 19 horas, uma pessoa da comunidade LGBTQIA+ é morta em nosso país. Segundo a Rede Trans Brasil, a cada 26 horas, aproximadamente, uma pessoa trans é assassinada. A expectativa de vida destas pessoas hoje, não ultrapassa os 35 anos. Pelo 12º ano consecutivo, o Brasil é o país que mais assassina transexuais no mundo. É claro que isto está além do mercado de trabalho convencional, mas as empresas têm responsabilidade quando decidem pela não-contratação.

Agora, em 2021, os canais de denúncia contra os Direitos Humanos (Disque 100 e Ligue 180) recebem um registro de violência contra a mulher a cada cinco minutos. 72% destas denúncias foram de violência doméstica e familiar. A maioria das vítimas são mulheres declaradas como pardas, de 35 a 39 anos, com renda de até 1 salário mínimo. O perfil mais comum dos suspeitos é de homens brancos de 35 a 39 anos. Os institutos Locomotiva e Patrícia Galvão informam que 97% das mulheres declararam ter sofrido assédio no transporte público e privado no Brasil.

Não silenciar é o caminho

Os números apresentados são alarmantes e, claro, impactam diretamente no mundo corporativo. Eles refletem o comportamento das pessoas e empresas que se mantém passivas e omissas ao tema. Infelizmente, quando não nos posicionamos ou reagimos, damos licença tática aos agressores.

Não dá mais para usar o álibi da ignorância para praticar ou não enxergar o preconceito que presenciamos diariamente. Hoje e cada vez mais, o conhecimento permite que a gente entenda as diferenças e quebre estes tais padrões impostos, ao contrário de só se escandalizar com o que é novo. Precisamos urgentemente, liderar este processo de transformação, criando uma nova cultura de aceitação das diferenças.

Porque, enquanto não transformarmos esta dura realidade, as consequências continuarão a ser cruéis, tanto na vida pessoal quanto profissional das pessoas que não se encaixam nos modelos normalizados, por serem mulheres, negros, da comunidade LGBTQIA+, pessoas com deficiência, pessoas com mais de 50 anos, entre tantos grupos oprimidos e minorizados. Temos que mudar esta cultura predatória na qual muitas vezes somos os algozes, mas onde podemos a qualquer momento, nos tornar as próximas vítimas.

Fonte: Uma #diversidadeCriativa

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