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Rui Carvalho
Não concordo com uma palavra do que dizeis, mas defenderei até à morte o vosso direito de dizê-lo
François Marie Arouet – Voltaire
17
setembro
2014

A VIDA COMO ELA É...

escrito por Rui Carvalho

Vivemos na era da conectividade. Expressões como “espera um pouco que vou entrar na internet”, comuns meia dúzia de anos atrás, hoje não fazem nenhum sentido, pois vivemos conectados vinte e quatro horas por dia. Ao chegarmos a um restaurante não pedimos o cardápio, pedimos a senha do uaifai, assim meio sôfregos, como se alguns minutos desconectados significassem um perigo real de colapso. A necessidade de estarmos conectados no dia a dia cada vez se parece mais com a dependência do moribundo com relação aos equipamentos numa UTI. Vivemos entubados em nossos devices, e cada geringonça parece vital. Ignorar um toque, um sinal, um aviso, um bip, pode significar risco de morte, incapacitação permanente. Ficar off-line é morrer no SUS do isolamento.

Descontados os evidentes exageros, a verdade é que, muitas vezes, precisamos mesmo estar conectados independentemente de hora e lugar. Não há como negar que boa parte da vida acontece online, e o único jeito de acompanhar em tempo real o que se passa neste nosso mundo de fronteiras invisíveis, é adaptar-se, é mergulhar de vez no mar de bits e bytes, migrar, com armas e bagagens, para dentro da rede.

Encontro-me, no momento, em posição privilegiada para observar esse fenômeno e estabelecer um paralelo com o passado (entenda-se passado, aqui, como uns dez ou quinze anos atrás, claro!). Na tentativa que venho empreendendo para encontrar recolocação no mercado de trabalho, pude perceber que a diferença na forma de agir não foi apenas cosmética, mas radical. Vamos aos fatos: pouco tempo atrás encontrar um emprego demandava imprimir e distribuir dezenas de cópias do currículo, e sair batendo de porta em porta atrás de oportunidades. Na era digital isso não é opção. Os contatos, a movimentação do networking e a busca de oportunidades acontecem online. É preciso monitorar as redes sociais, as notícias do mercado, reavivar contatos, enfim, identificar chances de recolocação, mas tudo isso pode ser feito do sofá de casa, e, o que é melhor, a qualquer hora e em qualquer lugar através dos vários dispositivos que nos mantêm conectados o tempo todo. Isso é ruim? Pelo contrário, é muito prático, pois atingimos um universo maior com menos esforço e em menos tempo. Mas, claro, não se pode ficar só nisso. O ambiente virtual apresenta-se a nossos olhos como um universo de possibilidades que precisa ser decifrado, filtrado, interpretado à exaustão até que surja algum resultado concreto. É como procurar agulha num palheiro, só que é um palheiro sem limites definidos, sem localização conhecida. Para isso não há GPS que resolva, pois as coordenadas são subjetivas. Este é apenas um exemplo prático de como a conectividade permanente alterou hábitos, mudou conceitos e influenciou estratégias. Mas nem tudo é assim tão simples. É preciso haver limites, claro. Há oportunidades em que o mundo virtual não deveria impor-se à vida real. Há momentos e lugares onde uma boa conversa olho no olho, um sorriso aberto, um abraço, são insubstituíveis. Mesmo na busca de emprego não se pode prescindir do contato pessoal, da entrevista, da conversa que identifica afinidades e converge objetivos.

Há atitudes no uso da conectividade permanente que incomodam e provocam reflexão. Não consigo habituar-me, por exemplo, com a cena, infelizmente comum, de ver quatro pessoas sentadas em volta de uma mesa de restaurante, para saborear um jantar em família ou amigos, e perceber que cada um está com a cara enfiada no smartphone, ignorando completamente a presença dos outros. O que haverá de tão importante e urgente que não possa esperar o final da refeição? Claro, se houver uma emergência, tudo bem, é justificável. Mas, interagir nas redes sociais em detrimento do contato pessoal e afetuoso de quem está ao nosso lado, desculpem, isso é uma tremenda falta de educação. É grosseiro, é rude, é de extremo mau gosto. O que você acharia, por exemplo, se tivesse marcado um encontro com sua namorada, e, ao chegar para buscá-la, ela entrasse no carro e iniciasse uma conversa telefônica com uma amiga, ignorando tua presença? Pois é mais ou menos essa a sensação que tenho quando presencio as pessoas reunidas numa mesa de restaurante e afastadas pelos seus dispositivos móveis! Há uma frase (já) clássica que diz que as redes sociais “aproximam quem está longe e afastam quem está perto”. Nada mais verdadeiro. É constrangedor perceber que as pessoas preferem postar a foto do prato, a comentar a refeição com quem a partilham. É irritante constatar que há pessoas que preferem filmar e fotografar as obras do Museu ao invés de apreciá-las com o respeito e a contemplação que elas merecem.

O mundo digital é muito prático, é bem-vindo e, em minha opinião, imprescindível sob vários aspectos. Não consigo imaginar a vida sem as facilidades da internet ou sem a praticidade e as proezas dos dispositivos móveis. Porém, acredito firmemente que nada, mas nada mesmo, nem hoje nem nunca, poderá substituir a beleza de um sorriso, o conforto de um abraço.

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