Mercado & Eventos
Rui Carvalho
Não concordo com uma palavra do que dizeis, mas defenderei até à morte o vosso direito de dizê-lo
François Marie Arouet – Voltaire
12
julho
2013

As Ondas de Impacto Dos Eventos

escrito por Rui Carvalho

AS ONDAS DE IMPACTO DOS EVENTOS

Que o mercado de eventos vem crescendo consistentemente em todo o planeta, gera milhões de empregos, distribui renda e promove o desenvolvimento econômico e social dos países, regiões ou cidades que o trabalham adequadamente, isso a gente já sabia há algum tempo! Mas se não olharmos com o microscópio da curiosidade as entranhas desse complexo organismo vivo deixaremos de notar o que ele tem de mais impressionante: a sua espantosa abrangência e capilaridade! Se ignorarmos essa característica estaremos condenando toda essa riqueza à vala comum das frases feitas, o que, convenhamos, seria um tremendo desperdício!

Pesquisa conduzida em 2001/2002 pela Revista Eventos e a Federação Brasileira de Convention & Visitors Bureaux – entidade que reunia, na época, mais de 50 CVBx de todo o país – demonstra que no Brasil o setor movimentava 37 bilhões de reais, empregava quase 3 milhões de pessoas e era responsável por mais de 3% do PIB nacional. Eram 327.000 eventos a cada ano, impactando dezenas de atividades. Há fontes que indicam um crescimento médio de 10% ao ano no setor, por isso, embora a pesquisa não tenha sido refeita, imagine-se a robustez desses números se fossem atualizados. Há especialistas que defendem que a atividade turística, direta ou indiretamente, impacta todos os setores da economia, mas o importante não é determinar quantas atividades são beneficiadas, mas refletir sobre a abrangência desse impacto e saber aproveitar as relações comerciais que dele resultam para impulsionar e fortalecer o segmento. No livro que escrevi sobre este assunto -Turismo de Eventos, Atuação e História dos Convention Bureaux no Brasil   (http://www.clubedeautores.com.br/searchutf8=%E2%9C%93&what=Turismo+de+Eventos&sort=&commit=BUSCA) afirmo que é preciso prestar atenção ao que chamo de EAT – Economia Ampliada do Turismo. Explico o conceito: quando um hotel está sendo construído, por exemplo, é preciso considerar que embora a indústria da construção civil não esteja diretamente ligada ao turismo, nos meses em que dura a sua construção ela passa a integrar a EAT, ampliando muito a capacidade de impactar a economia em geral. O mesmo acontece na sequencia quando o hotel for comprar as roupas de cama mesa e banho, as louças e talheres e as TVs que vão equipar os apartamentos. Ao fazerem isso estão impactando a indústria têxtil (30 milhões de peças/ano), a cerâmica e cutelaria e até a eletroeletrônica. Infelizmente parece que nem todos os players entenderam essa correlação. Se olharmos com atenção a capilaridade do nosso negócio vamos descobrir que há muitos parceiros que precisam ser convidados a dançar o nosso baile, e precisa ser no nosso ritmo! Chamo a esse efeito multiplicador de "Ondas de Impacto", e o exemplo acima é um exemplo simples do que considero a Terceira Onda. Pois são os beneficiados por ela que precisam ser convidados para o nosso baile e ensinados a dançar o nosso ritmo! 

Usando o mesmo raciocínio acompanhe o que acontece quando usamos o tal do microscópio para analisar a movimentação do setor de eventos: Se um grande evento acontece em determinada cidade há atividades que são imediatamente impactadas. Entre as mais óbvias estão o transporte, a hospedagem e a alimentação. Estamos perante a Primeira Onda. Entretanto, não há como negar que setores como o de serviços especializados para eventos, ou de apoio a estes (segurança, recepção, gráfica, decoração, locação de equipamentos audiovisuais, comunicação visual, etc.) são também  impactados, no que chamamos de Segunda Onda. Até aí, nada de novo no front dirão os mais céticos. Essas atividades são investidoras habituais do setor de eventos através das contribuições que fazem como filiados aos convention bureaux de suas cidades. Todos os executivos de CVBx sabem que é preciso garantir a filiação dessas empresas para garantir o orçamento mensal capaz de permitir o cumprimento das metas de captação e manter a representatividade. O que causa perplexidade e provoca reflexão é que há segmentos comprovadamente beneficiados pelo círculo virtuoso do turismo de eventos que nunca contribuíram, com um único centavo, para a promoção dos destinos ou a captação de eventos. Nem na forma de patrocínios nem com apoio à manutenção de nossas estruturas de captação e defesa do destino. Chega a ser constrangedor constatar que pouco ou nada se faz na tentativa de chamar esses setores da economia à responsabilidade! Refiro-me aqui a empresas como bancos, companhias telefônicas (móvel e fixo), montadoras de automóveis e utilitários, geradoras de energia e outras grandes empresas de variados setores. Se você, caro leitor, não vê a conexão entre elas e o setor de eventos, então precisa dar uma espiada no tal microscópio que mencionei no início deste texto!

Quando milhares de congressistas participam de um evento é natural que o consumo de energia elétrica aumente. Centros de eventos, por si só, são grandes consumidores de energia. Centenas ou até milhares de celulares são utilizados em roaming, que gera milhares de reais de receita adicional para as operadoras. Vale lembrar também que todas as transações financeiras que envolvem os eventos, da inscrição ao pagamento dos estandes, utilizam-se do sistema bancário, pagando taxas, juros e serviços! E o que dizer da indústria automobilística? Qual será o impacto da demanda por utilitários para transporte de turistas, vans e ônibus, e pelas compras efetuadas pelas milhares de empresas de turismo receptivo do país na produção de veículos comerciais? E as compras das locadoras? Quantos milhares de automóveis são comprados anualmente para atender ao mercado de rent a car? (estima-se que apenas as empresas filiadas à ABLA – Associação Brasileira de Locadoras de Veículos – respondam pela compra de cerca de 10% da produção automobilística nacional). É isso, pois, que chamo de Terceira Onda de impacto.

Seria útil descobrir por que razão não conseguimos que esses setores invistam um centavo em nossa manutenção e desenvolvimento. Talvez porque não tenhamos conseguido sensibilizá-los para a importância de manter uma indústria de eventos forte, atuante e cada vez mais profissional, capaz de gerar não só emprego e renda em abundância, mas resultados comprovados para todos os envolvidos, independentemente da onda de impacto onde se situem, ou da ligação mais ou menos direta que mantenham conosco. Aliás, aí reside o problema principal: ou somos capazes de mensurar esses impactos ou não teremos argumentos para convencer essas empresas a colaborar com nossas entidades. Desde que a pesquisa que mencionei no primeiro parágrafo foi publicada muita coisa mudou. Nosso mercado cresceu, de 50 CVBx passamos a mais de 100, nossos profissionais se especializaram, ganhamos mais espaço na mídia, enfim, ninguém mais discute a importância do Turismo de Eventos para o desenvolvimento dos destinos. Só o que não mudou, o que permanece inalterada é a nossa ineficácia em cobrar do poder público a produção de pesquisas atualizadas, de indicadores confiáveis. Essas são as armas com as quais podemos combater a apatia e a indiferença dos beneficiados pela Terceira Onda. Muito se fala em ranking da ICCA. No nosso meio é quase uma obsessão! Esse indicador é importante e é útil, mas já passou da hora de buscarmos construir o ranking da IBE – Indústria Brasileira de Eventos. Sem essa bússola jamais chegaremos a bom porto, pois não sabemos qual o rumo a seguir. É minha gente, parece que alguém precisa fazer urgentemente a lição de casa. O que nossas diretorias andam fazendo? Que pressão serão capazes de exercer? Não seria um objetivo muito mais nobre do que o de insistir em acompanhar com lupa o dia a dia das entidades, envolvendo-se em questões menores que poderiam ser muito bem administradas por nós, gestores? Com a palavra os presidentes de CVBx, as Federações Estaduais e a s entidades nacionais do setor de eventos. Propor, a exemplo de outros países, um Obervatório do Turismo capaz de produzir estatísticas do setor de eventos com regularidade já seria um bom começo, ou não? Com a proximidade do I Encontro Latino-americano e Congresso Brasileiro de CVBx, que ocorrerá em Florianópolis em Dezembro deste ano, talvez fosse oportuno iniciar a discussão deste tema.  Bom, é só uma ideia!

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