Mercado & Eventos
Rui Carvalho
Não concordo com uma palavra do que dizeis, mas defenderei até à morte o vosso direito de dizê-lo
François Marie Arouet – Voltaire
02
julho
2013

Autofagia Social

escrito por Rui Carvalho

No setor de eventos quem é que nunca conviveu com pessoas que se alimentam de sua própria empáfia? Líderes (?) que dependem tanto de aprovação e poder que confundem arrogância com voluntarismo? São autofágicas. Seus egos são tão inflados que não há espaço para as idéias dos outros. Na verdade são pessoas com baixa autoestima. Precisam estar sempre no centro das atenções, ou sucumbem aos próprios defeitos. É constrangedor observá-las tentando ser notadas, tentando ver sua importância reconhecida. Normalmente esse tipo de pessoa não sossega enquanto não disputar (e ganhar) todos os cargos a que puder concorrer, de síndico de prédio a presidente de entidade de classe. Pode-se vê-los a desfilar sua insegurança em reuniões, eventos e discursos. Adoram uma eleição e são capazes de complicadas engenharias corporativas para ganhá-las a qualquer custo, mesmo que o custo seja sacrificar os objetivos da entidade que dizem defender! É o avesso do avesso, ao avesso!

Mas não há como negar que são uma espécie curiosa. Aparentam não querer aparecer, quando na verdade dependem do elogio público como as flores dependem do sol! Sua humildade, meticulosamente planejada, serve apenas como tentativa de obter aprovação para a sua arrogância. É uma espécie de jogo de espelhos, de esconde-esconde, onde nunca nada é o que parece ser. São perigosos, pois como pessoas inseguras costumam castigar implacavelmente quem ousa cruzar-lhes o caminho e atrapalhar seus planos. Vingativos, são capazes de urdir complicadas tramas só para dar o troco numa pequena afronta, ou no que eles acharam que foi uma afronta, e que normalmente não passa de uma opinião contrária. Em sua ânsia de sentir-se poderosos e respeitados costumam enfraquecer as entidades que dirigem e desrespeitar quem se lhes opõe! No fundo são uns pobres coitados, vivem num mundo irreal que criaram para proteger seus medos, suas falhas, seus problemas. Nada haveria de errado se esses seres autofágicos se contentassem com os falsos elogios de que são alvo constante, mas o problema é que sempre querem mais. Passam por cima dos sonhos dos outros como um trator desgovernado. Ignoram os princípios de seus pares sempre que seus escusos fins correm o risco de ser desmascarados.

No Brasil, infelizmente, esses predadores sociais encontram condições ideais de proliferação nos milhares de associações, entidades de classe e ONGs que compõem o mercado do Terceiro Setor. Não é difícil notá-los, estão sempre em busca de vantagens pessoais, embora escondidos atrás de interesses coletivos legítimos. São uma praga, uma ameaça para as causas, já que a única causa que defendem é a própria! Sua influência perniciosa espalha-se como metástase por toda a organização, e só se consegue extirpá-los com muita coragem, muito jogo de cintura, e a arma mais letal: o voto consciente e corajoso nos Conselhos Diretivos ou Curadores. Não é que se vê, infelizmente. O corporativismo, a inércia, a acomodação pelo trato social e o pendor brasileiro para a conciliação, elogiável em outros contextos, contribuem para entronizar esses parasitas no poder, criando um círculo vicioso difícil de romper. É pena, pois só quando as entidades e associações forem capazes de defender causas (e não privilégios) é que a sociedade civil terá amadurecido e estará apta a proporcionar plena cidadania a todos. Para isso é preciso combater, neutralizar e desmascarar os pseudo-líderes, os onipresentes nas diretorias e conselhos, os caudilhos profissionais, os que lutam por uma única causa: tirar proveito de tudo e todos para continuar a alimentar sua sede de poder, sua insaciável vaidade, combustível essencial que alimenta sua mal disfarçada mediocridade. Sinceramente? Não conheço melhor descrição para complexo de inferioridade, e você?

Se a influência desse “baixo clero” dirigente em nossas entidades não chega a comprometer a captação de eventos ou o desempenho de um destino, o certo é que todos estaríamos muito melhor sem ele, principalmente porque conseguiríamos trabalhar com muito mais motivação, mais afinco, mais liberdade para explorar o potencial criativo que é tão importante no nosso segmento. Para usar uma expressão muito comum em nosso dia a dia, já que lidamos frequentemente com médicos e profissionais da saúde, urge que consigamos extirpar esse câncer!

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