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Rui Carvalho
Não concordo com uma palavra do que dizeis, mas defenderei até à morte o vosso direito de dizê-lo
François Marie Arouet – Voltaire
08
julho
2013

COPA DE 2014 - Pátria com Olheiras?

escrito por Rui Carvalho

COPA DE 2014 – Pátria com Olheiras?

Muito se tem falado sobre a Copa de 2014 e os benefícios que ela trará para o Brasil. As opiniões divergem, mas é quase unânime o sentimento de orgulho de quem vê a realização do torneio como um momento único, uma chance para o Brasil brilhar lá fora e consolidar sua (nova) imagem de país (quase) desenvolvido. Não quero jogar água nessa fervura, mas tenho minhas dúvidas. 

O maior benefício de um país como o Brasil ao realizar eventos dessa natureza não está no evento em si, mas no se faz ANTES e no que fica DEPOIS deles. Ter a chance de melhorar substancialmente a mobilidade urbana, a infraestrutura aeroportuária, estradas, segurança, sistema de atendimento na saúde, parque hoteleiro e todos os impactos positivos que um evento desses proporciona, é oportunidade única e que deveria, sim, ser aproveitada ao máximo. Mas não é o que se vê. Só se fala na construção das arenas e na chance da Seleção sagrar-se campeã em casa, como se isso, por si só, garantisse o sucesso do evento. Talvez garanta mesmo, depende do ponto de vista de quem! O resultado do torneio pode influenciar as eleições de outubro, principalmente se o movimento das ruas arrefecer! A velha receita do "pão e circo" será oferecida ao populacho mais uma vez. Se ele vai aceitar o engodo ou não, aí já é outro campeonato, esse com resultado imprevisível. 

Os especialistas em justificar o injustificável, quando questionados sobre o que se vai fazer com alguns estádios depois da Copa, como os de Natal, Manaus, Cuiabá e Brasília, por exemplo, respondem, convictos, que as arenas foram projetadas para receber não só o futebol, mas grandes eventos. Pois bem: que grandes eventos vão acontecer nessas cidades capazes de rentabilizar estádios milionários com capacidade para receber dezenas de milhar de espectadores? Será que já podem mostrar-nos a agenda? Alguns dizem que a sustentabilidade das arenas virá de grandes shows. Será que Paul McCartney, Elton John, Roger Waters e Madona vão fixar residência no Brasil e apresentar-se para o distinto público tupiniquim todos os meses? Ou as marchas evangélicas vão ganhar o país e não haverá espaço para abrigar tanta fé? Pois haja fé, já que público para encher os estádios regularmente de forma a garantir o retorno do investimento, não estou vendo no horizonte próximo! O que é certo é que alguns vão virar elefantes brancos em meio à paisagem cinza de nossa pobreza, quer social, quer de espírito. Talvez possamos usá-los como atrativo turístico para mostrar aos visitantes como se enterra o dinheiro de nossos impostos!

É claro que eles serão terminados a tempo. Para terminá-los, entretanto, vimos licitações duvidosas e obras contratadas em regime de urgência. Receio que elas não nos deixarão boas lembranças. Vamos ter muita gente ganhando dinheiro de forma pouco republicana, e, por certo, recursos públicos e posturas éticas fadadas ao mesmo destino: o ralo da corrupção e da impunidade! Mas os estádios ficarão lindos! Impávidos e serenos monumentos à estupidez de um país que se acha desenvolvido sem esgoto, rico sem educação básica, e de primeiro mundo com índices de violência capazes de constranger os fanáticos da Al-Qaeda

O assunto é sério e a situação é grave. E não me refiro à possibilidade, real, do Brasil passar vergonha perante o mundo por não conseguir organizar um evento desses dentro dos padrões esperados por seus organizadores. Preocupa-me mais a possibilidade de não aproveitarmos a oportunidade da Copa e da Olimpíada para desobstruir os gargalos de infraestrutura que tanto emperram o desenvolvimento sustentável do país. Melhorar de forma definitiva (e não apenas para a Copa) o sistema de transporte público, os hospitais, os aeroportos, os portos, as estradas, a segurança e a qualidade da mão de obra, ainda seria o melhor resultado para o Brasil, independentemente do que nossa Seleção possa fazer em campo. Recuperar o atraso no desenvolvimento de nossa sociedade rumo a um sistema mais justo e menos desigual, esse sim, seria o troféu mais importante a ser conquistado. Se ao menos soubermos aproveitar a exposição midiática para mais de dois bilhões de pessoas ao redor do planeta para catapultarmos os números do nosso turismo nos anos que virão, já teremos minimizado os efeitos do festival de ufanismo que vem por aí! Mas desconfio que estamos a ponto de perder de goleada mais uma vez! É pena, o Brasil merecia melhor sorte. 

Urge que evitemos que a pátria de chuteiras acorde, em agosto de 2014, como pátria com olheiras, pois a ressaca não vai combinar com a imagem que queremos para chegar ao primeiro mundo! Com a palavra a voz das ruas.

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