Mercado & Eventos
Rui Carvalho
Não concordo com uma palavra do que dizeis, mas defenderei até à morte o vosso direito de dizê-lo
François Marie Arouet – Voltaire
17
agosto
2014

FOI UMA FESTA...

escrito por Rui Carvalho

Podem chamar-me de velho, de impertinente, de chato. OK. Assumo que tenho cá minhas manias e que a idade já me faz ter menos paciência com certas coisas que antes pareciam normais. Mas, quem já passou dos cinquenta e não se sente assim, que atire o primeiro fio de cabelo branco!

Vem isto a propósito de algumas cenas que presenciei num evento recente que segui pela televisão. Por falar em eventos, há um do qual ninguém quer participar, mas, fatalmente, ninguém escapa: é o evento do próprio funeral. Queiramos ou não, e não importa quem o organize, nossa presença é compulsória. Mas como em qualquer evento, também nos funerais há variados tipos, tamanhos, importância e muitas outras condicionantes que determinam o roteiro de cada cerimônia. Uma coisa, porém, deveria ser unânime e padrão: um funeral, qualquer um, deveria ser um evento triste, um momento de consternação, período de reflexão. Velório, por mais popular que seja o falecido, não é local de festa, de risos, de barulho, de espetáculo. Além disso, velórios e serviços fúnebres, como qualquer outro evento, precisam ter um roteiro, um planejamento, um cerimonial. Mas, ao contrário da maior parte dos eventos que celebram e comemoram algo ou alguém, velórios sempre nos remetem à fragilidade da vida e à efemeridade de nossa passagem por este mundo. Não importa quem seja o velado, para a família é sempre um evento sofrido, introspectivo, carregado de emoção e luto. Por mais que o falecido tenha sido popular em vida, por mais que haja razões para homenagear, um funeral não é momento de celebração, de comemoração. A regra é as pessoas mostrarem-se contritas, tomadas por um sentimento de perda que deixa o olhar vazio, a alma em estado de catarse. Assim deveria ser, pois há certa liturgia em funerais, mas não é o que se vê, não foi o que percebi no grande evento público que foi o funeral de Eduardo Campos, morto aos 49 anos em trágico acidente de avião, em plena campanha para a presidência da república do Brasil. É uma pena. Não lamento só a morte de um cidadão de bem e político promissor, lamento também alguns desacertos no evento que foi seu funeral. Mas disso falarei mais adiante, pois é só um exemplo. O que quero que reflitam é o que estamos fazendo com nossas vidas privadas, se é que alguém ainda tem uma! 

A popularização da tecnologia e das redes sociais parece que transformou qualquer coisa em espetáculo, em show. Não existe mais privacidade, não há lugar para esconder a dor, não se respeita mais o luto e o sofrimento de quem perdeu um ente querido. Mas por vezes parece que até mesmo a família abre mão desse direito, e contribui, por ação ou omissão, com essa mania de carnavalizar tudo. A mídia, sempre em busca de um ângulo que renda audiência, de uma foto que revele o que vai na alma de quem sofre, implacavelmente perseguindo a tímida lágrima que teima em escorregar do canto do olho, inferniza a vida de quem participa dessas cerimônias, não respeitando nada nem ninguém. Pisoteiam-se sepulturas, invadem-se espaços de oração, iluminam-se expressões de pesar que deveriam ficar longe das lentes e do grande público. Em busca da audiência a qualquer custo, escancara-se o sofrimento, desnudam-se as emoções, ignoram-se princípios basilares de comportamento, violam-se regras da mais elementar etiqueta social. Tudo em nome da melhor foto, do melhor ângulo. É preciso enfiar microfones boca adentro de familiares e amigos, atirar-lhes à queima roupa perguntas imbecis, descabidas e dispensáveis. Repórteres, principalmente quando em transmissões ao vivo, não sabem o que fazer, o que comentar, o que perguntar. Isso tem uma razão simples: em momentos assim a melhor linguagem é o silêncio, a postura mais digna é a discrição, a melhor reportagem deveria ser o respeito pelos que sofrem, e não a sua execrável exposição a qualquer custo. Há momentos que é melhor observar de longe. Mas não é só a mídia que peca, pois ela é apenas o reflexo da sociedade que a consome. A mídia mostra o que o cidadão quer ver, o que o povo compra e comenta. Nós pagamos o pão e eles nos dão o circo, simples assim!

O que mais me angustia, entretanto, é ver que as pessoas, hoje em dia, não apreciam mais a vida real. Preferem vê-la através das lentes do celular, do tablet ou da câmera fotográfica. As pessoas desaprenderam a usar o olho vivo e o cérebro para entender o mundo à sua volta, isso é perda de tempo. Hoje em dia basta filmá-lo, fotografá-lo, exibi-lo! Nas viagens não se aprecia mais a paisagem ou a obra de arte no Museu, é preferível registrá-las para depois exibir as imagens a quem não foi. Isso está mais parecido com arrogância e pobreza de espírito do que com programa de turista. Nada de errado em fotografar uma viagem, esse é um dos prazeres que elas proporcionam. Mas não é necessário cobrir cada detalhe, cada prato, cada momento dela, e vomitar tudo, instantaneamente, nas redes sociais para que todos saibam como somos lindos, viajados, chiques, exibidos e burros. Basta registrar os momentos mais relevantes, perpetuar instantâneos que lembraremos, depois, nós e os mais chegados, por muitos anos. Infelizmente não é o que se faz. As pessoas olham a vida através das lentes, tudo, absolutamente tudo precisa ser registrado. Depois, claro, as imagens repousarão para sempre na impessoalidade de algum cartão de memória, na solidão de um pen drive. Mas não importa, mesmo que nunca mais as vejamos, que nunca as mostremos, sabemos que elas estão lá, que registramos tudo que não vimos, para atirar na cara de algum amigo ou vizinho menos viajado. É lamentável, mas é isso que acontece nas festas, nos eventos, nas reuniões, nas cerimônias, e, como acabei de constatar, até nos funerais. Não importa o morto, sua memória, sua obra. O que importa é o ato em si, o funeral como espetáculo, para dizer que estivemos lá, que não perdemos o show.

Do ponto de vista de organização, o funeral de Eduardo Campos foi um case de improvisação. Mas parece que isso atendeu perfeitamente à expectativa do público e da mídia. Ao invés de orações, palavras de ordem; no lugar das lágrimas, sorrisos; onde devia haver recato, viu-se celebração, espalhafato e festa! O cortejo seguia por entre a multidão desordenada que impedia o carro de bombeiros de avançar. Não havia cordão de isolamento, ou se havia ele nada isolava. Parecia a marcha dos foliões atrás do trio elétrico! A família decidiu acompanhar o caixão e subiu no carro de bombeiros. Há de se respeitar essa decisão. Cada um sofre como quer e demonstra como pode. Mas familiares e amigos gritando palavras de ordem como se fosse um comício, no meu modo de ver, foi inapropriado! A família não velava o político popular, o candidato, o guerreiro do Brasil. Dava adeus ao pai, ao marido, ao filho! Talvez não devesse deixar-se contaminar pelo clima populista que havia se instalado pela presença de tanta gente anônima, e tivesse sido mais compreensível que se recolhesse ao seu luto, ignorando a algazarra. Não sei, é a minha opinião e não quero emitir juízo de valor. 

Já no cemitério, a situação piorou. Dois filhos do falecido, agarrados às alças do esquife, usando um chapéu de palha que foi símbolo das campanhas políticas do bisavô, abriam caminho aos berros por entre a multidão que insistia em dificultar o avanço do cortejo. A mim pareceu mais uma despropósito: dentro do cemitério não deveria haver um corredor protegido por onde o cortejo pudesse avançar em direção ao túmulo sem a necessidade de empurrões e atropelos? Não. Seguiam todos, no sufoco, empurrando-se uns aos outros, ao som de palavras de ordem, canções e exibição de cartazes. Por fim, já à beira da sepultura, também não entendi por que o filho mais velho teve que fazer o papel de coveiro, manuseando as cordas que levariam a urna ao seu descanso final, verificando constantemente se as fechaduras estavam travadas, e preocupando-se com detalhes que deveriam ser preocupação do serviço funerário municipal! É claro que ele tem o direito de fazer isso, e deve ter lá suas razões. Não quero com isto dizer que não havia sofrimento, é claro que sim. Já enterrei meu Pai e sei que a essa dor nenhum filho é imune. O que passava pela cabeça daquele jovem de vinte anos confrontado com uma tragédia de tal porte, só Deus sabe! Entretanto, caramba, não seria um momento de profunda tristeza, de reflexão, de compenetração? Um filho à beira do túmulo do Pai morto ainda jovem em acidente trágico não deveria demonstrar mais quietude, mais recato? É aí que entra a influência do clima de festa que se instaura em todo o evento público neste país. Como demonstrar dor e contrição em meio a quinze longos minutos de fogos de artifício e uma multidão cantando e gritando? Afinal, serviços fúnebres não deveriam ser lugar de silêncio ao invés de celebração? A ironia é que os fogos estouravam no céu, igual festa de réveillon, enquanto um solitário soldado da PM executava o toque de silêncio em seu trompete! Valha-me Deus, que contradição, que gafe de organização num evento que deveria ter sido planejado em todos os detalhes para garantir uma atmosfera de respeito, de religiosidade, de tristeza profunda! 

Sinceramente, eu não entendo esse tipo de comportamento, não concordo que tudo precise ser televisionado, fotografado, exibido. Não sou muito religioso, mas, perante a morte precisamos demonstrar certo respeito, alguma compostura. Afinal, calou-se a vida, bem supremo de todo ser humano, por que razão não se podem calar as vozes, ainda que por uns momentos? Quer saber? O que o Brasil precisa, urgentemente, é de um intensivo curso de cerimonial, um profundo ajuste na sua maior deficiência: a Educação Básica. Que grande evento seria se isso acontecesse, e, aí sim, que grandes motivos teríamos para comemorar, celebrar e gritar slogans! Enquanto isso não acontece, vamos continuar a fazer silêncio nas urnas e barulho nos funerais. Será que Freud explica?

Arquivos
Buscar nos Blogs
O que deseja procurar?
Escritores
Newsletter
Receba as novidades