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Rui Carvalho
Não concordo com uma palavra do que dizeis, mas defenderei até à morte o vosso direito de dizê-lo
François Marie Arouet – Voltaire
02
janeiro
2015

Falta Indignação

escrito por Rui Carvalho

Pelo que se viu na posse dos novos mandatários do executivo, a conclusão a que podemos chegar é que falta indignação. Nos discursos de posse e nas discussões das primeiras reuniões de equipe, tanto Dilma Rousseff quanto os governadores não foram capazes de ir além da retórica. Frases como “vamos cortar gastos”, ou “somos contra a corrupção” foram repetidas como mantras, como se fosse possível afirmar o contrário publicamente! Ou seja: mais do mesmo. Dilma chegou a afirmar que tomaria as medidas de austeridade necessárias sem cortar direitos trabalhistas ou conquistas sociais. Isso, dois dias depois de ter ordenado importantes alterações nas regras do seguro desemprego e no sistema de pensões por viuvez! Lamentável. O problema não está nas medidas em si, que eram realmente necessárias e ajudarão a amenizar o desiquilíbrio das contas públicas. O problema está na insistência do uso da mentira e da manipulação. Está no uso recorrente da demagogia e na incapacidade de enviar a mensagem correta aos brasileiros. Os governadores que ouvi não fizeram diferente. Ninguém se atreveu a soltar o verbo como deveria em tempos de profunda crise. Situações drásticas precisam de medidas desesperadas, e não deveria haver espaço para a retórica fácil. Gostaria muito de ver a presidente e os governadores dizerem que “sim, estamos enfrentando grave crise, e precisamos tomar medidas duras, cortar benefícios, lutar por reformas que implicam na adoção de medidas impopulares, enviar os corruptos para a cadeia, convocar as ruas para apoiar as ações de saneamento ético que se fazem necessárias”. Nenhum governante tem coragem de dizer a verdade, dizer o que pensa. Todos, ou quase todos, preferem jogar para a torcida, fazer discursos óbvios, dar declarações que os jornalistas já sabem de cor e poderiam escrever sem sequer ouvi-los. Ora bolas! Se é para ir à TV dizer que os corruptos serão punidos caso haja provas concludentes, ou dizer que a Petrobras continua firme e que não teme os ataques das “elites conservadoras” à sua imagem, mais valia ficarem calados. 

O que falta aos políticos brasileiros é a capacidade de se indignarem, a vontade de fazer diferente, a coragem para romper com o discurso "politicamente correto” e optar pela verdade, por mais dura e impopular que ela seja. A presidente acaba de adotar medidas (corretíssimas, diga-se) em favor do desenvolvimento econômico, mas em nenhum momento teve a grandeza de reconhecer que são as mesmas medidas que a oposição pregava durante a campanha eleitoral, e que o governo sempre negou que tomaria! Onde está a coerência? Onde fica o caráter? Que exemplo estão dando aos nossos jovens? Será que a campanha eleitoral é um período onde vale tudo, onde todos os pecados são permitidos desde que se obtenha a vitória nas urnas? Então isso significa que é aceitável enganar o povo, iludir o eleitor, mentir para o cidadão, com a desculpa de que tudo era para o bem dele? Como assim? Os fins justificam os meios? É isso?

Na minha visão carecemos de políticos que sejam capazes de falar a verdade que já conhecemos, e que saibam lidar com as consequências. Mas políticos assim estão em falta porque cidadãos assim rareiam na nossa sociedade, ou os políticos vieram de outro planeta? A conclusão a que chego é que faltou indignação porque ela implica em saber o que é dignidade. Numa sociedade na qual o TER é mais importante que o SER, o resultado só podia ser esse. Perdeu-se a capacidade de indignação porque não sabemos mais o que é ter dignidade. Por isso aceitamos tão facilmente um escândalo atrás do outro; uma mentira atrás da outra; a depredação nas manifestações públicas; o incêndio de ônibus como se fosse a coisa mais natural; a sexualização de nossas crianças com o beneplácito dos pais; a ascensão de políticos que desprezam a educação e os princípios morais. O Brasil perdeu a mão. Perdeu o jeito, rendeu-se ao jogo rasteiro da ignorância e da futilidade. O Brasil não fica mais indignado com o que acontece no dia a dia porque boa parte da população não sabe o que é ser digno. A culpa não é dos políticos. A culpa é de quem os produz, ou seja, a culpa é de todos nós. Já passou da hora de irmos às ruas não para exigir direitos, mas para oferecer deveres. Estamos precisando demonstrar que ainda não esquecemos o que é ser digno, agir corretamente, repudiar a mentira e a manipulação. Já passou da hora de deixarmos de culpar os políticos como se eles fossem “ETs”, e começar a mudar o Brasil mudando algo dentro de nós mesmos. Só assim teremos alguma chance de abandonar a hipocrisia do “precisamos deixar um Brasil melhor para nossos filhos”, para adotar a verdade que tanto teimamos em ignorar: “Precisamos deixar filhos melhores para o nosso Brasil.” Simples assim.

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