Mercado & Eventos
Rui Carvalho
Não concordo com uma palavra do que dizeis, mas defenderei até à morte o vosso direito de dizê-lo
François Marie Arouet – Voltaire
23
julho
2014

Gol Contra

escrito por Rui Carvalho

Desde que o Brasil foi anunciado como sede da Copa da FIFA que a opinião pública se divide entre os que apoiam e os que criticam a sua realização no país. Em 2007, quando o anúncio foi feito por um eufórico presidente Lula já de olho nas eleições de 2010, eu estava no primeiro time. Achei que o evento seria uma oportunidade única para o Brasil desentupir alguns gargalos como os aeroportos e a mobilidade urbana, e equacionar melhor alguns problemas crônicos como a segurança e o atendimento hospitalar. Parecia-me promissor sediar um evento dessas proporções sem que dinheiro público fosse investido em obras que não fossem um legado para a população. No plano apresentado, e que me seduziu, o governo investiria na infraestrutura de transporte e segurança, e os maravilhosos estádios ficariam com a iniciativa privada. Era perfeito. Tão perfeito que eu devia ter desconfiado que não podia ser verdade! Confesso: como muitos, fui ingênuo. 

Com o passar do tempo a verdade apareceu. Ela sempre aparece, pois fatos têm o hábito de ser teimosos! O resultado foi o que se viu. De concreto, com o perdão do trocadilho, só os estádios bilionários que sangraram os cofres públicos. As melhorias na infraestrutura foram pouco além da promessa, da perfumaria, do improviso. Um escândalo, mas, pior que isso, uma excelente oportunidade perdida. Dentro de campo a festa também não correu como previsto, e, em estado de choque, os brasileiros descobriram que “o Rei está nu”! 

O atendimento aos estrangeiros foi o ponto alto do evento, e lá foi sendo feito com o jeitinho brasileiro que tanto encanta os gringos. É preciso lembrar, porém, que o público de um evento como a Copa é bem menos exigente do que o participante de eventos técnicos, científicos ou corporativos! O torcedor é muito mais informal, menos exigente, por isso estamos nos dando tão bem, mas é bom comemorar com parcimônia. É provável que o Brasil saia com a imagem melhorada aos olhos do mundo, e isso é importante. Vamos poder receber mais um bom punhado de turistas nos próximos anos, e esse era um dos objetivos do nosso setor. Missão cumprida. Podemos aplaudir, sim. O Turismo brasileiro vai poder exibir números mais robustos, principalmente no setor de gastronomia e serviços, mas será uma vitória efêmera, com prazo de validade curto e bem delimitado. Feitas as contas não tenhamos ilusões: esta Copa foi mais uma prova cabal da falta de capacidade do país para planejar e entregar o combinado. Mais uma prova de que, lá no planalto central, pensa-se mais nas próximas eleições do que nas próximas gerações, e isso não pode ser comemorado. Mais uma vez venceu o improviso e a hipocrisia.  Passada a Copa voltaremos a debater-nos com as velhas mazelas nos mesmos aeroportos e com as dificuldades de sempre no transporte público e no atendimento básico de saúde. 

O legado da Copa será mais minguado do que hoje o torcedor acredita. Alguém (adivinhe quem?) vai ter que pagar a conta dessas arenas faraônicas que ficarão como monumento ao pouco caso com o dinheiro público! Há quem diga que elas poderão ser usadas para eventos, já que foram projetadas com essa possibilidade. Muito bem cara pálida, mas que eventos poderemos ter em lugares como Manaus, Natal ou Cuiabá, capazes de lotar estruturas para mais de 40.000 pessoas? E com que frequência? Será que é com esse tipo de atividade que os administradores das arenas esperam poder arcar com os custos de manutenção? Vão precisar de muita sorte! Enfim, a Copa não foi tão ruim como alguns esperavam, mas está longe de ser o sucesso que poderia ter sido. Ao governo resta o uso político do sucesso de público e o oba oba  dos quinze minutos de fama internacional. A nós, contribuintes, o peso da conta que pagaremos nos próximos anos. Com a economia estagnada e a inflação crescente, acreditem: apesar do sucesso da Copa, há pouco o que comemorar!

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