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Rui Carvalho
Não concordo com uma palavra do que dizeis, mas defenderei até à morte o vosso direito de dizê-lo
François Marie Arouet – Voltaire
13
abril
2015

O Maior Evento de Abril!

escrito por Rui Carvalho

Nas aulas básicas de geografia aprendemos que Portugal faz fronteira com a Espanha ao Norte e a Leste, e com o oceano Atlântico a Sul e Oeste. Até aí, nada demais, embora não seja comum um país fazer fronteira exclusivamente com outro, a não ser por capricho da natureza e resultado inevitável da geopolítica! Quando olhamos por alguns instantes para o mapa da Península Ibérica, entretanto, salta aos olhos que aquele “jardim à beira mar plantado” parece desconfortavelmente espremido entre o vizinho e o mar. Assim fica mais fácil entender a propensão lusitana pela navegação. Era quase uma imposição, uma consequência natural de sua peculiar geografia. Senão vejamos: de um lado (ou dois), a hostilidade de um inimigo secular. Do outro (ou outros dois) a imensidão azul e o desconhecido. A pergunta que meus antepassados devem ter se feito inúmeras vezes, quando do alto das colinas de Lisboa se punham a observar o horizonte infinito, deve ter sido sobre o que seria melhor: enfrentar os perigos, já bastante conhecidos mas nem por isso menos letais, de um conflito com o vizinho com reconhecida superioridade numérica, ou aventurar-se na exploração do ponto de interrogação representado pelas fronteiras azuis. Na origem dessa escolha, que todos sabemos como terminou, parece estar o DNA do espírito aventureiro, desbravador e intrépido do povo que, desde o século XII, soube manter espanhóis, franceses e outros candidatos a invasor fora de suas fronteiras. Não bastasse essa façanha, aquele povo ainda foi capaz, de forma inovadora e destemida, de dar novos mundos ao mundo, no verso célebre do igualmente famoso Luiz de Camões em sua obra mais conhecida, a epopeia dos descobrimentos genialmente relatada no hermetismo poético das estrofes de dez versos dos “Os Lusíadas”!

Servi-me desta patriótica introdução para chamar a atenção para o fato de que o evento da expansão marítima portuguesa através das grandes navegações, antes de qualquer outra coisa, era quase uma obrigação, era o instinto de sobrevivência. Ou se condenava o país a ficar desconfortavelmente contido entre a Espanha e o mar, ou se desafiava este enquanto se tentava conviver com aquela! A opção, bem como suas consequências e resultados, que muito mais que ousada foi uma aula de estratégia política de fazer inveja aos marqueteiros de hoje, é suficientemente conhecida. A descoberta do caminho marítimo para a Índia, por Vasco da Gama em 1497, que finalmente dobrou o Cabo Bojador (obstáculo até então intransponível localizado ao largo do que hoje se conhece como Cape Town na África do Sul), e que passou a chamar-se Cabo da Boa Esperança, numa demonstração de que a corte portuguesa estava ciente das enormes vantagens de controlar o comércio de especiarias entre o oriente e o velho mundo; A viagem de circum-navegação (volta ao mundo) levada a cabo por Fernão de Magalhães de 1519 a 1522, que provou ser possível navegar ao redor do planeta e acabou por dar nome ao estreito na Terra do Fogo que separa os meninos dos homens na passagem do Pacífico para o Atlântico, e, para não me alongar nem me acusarem de estar contando vantagem, o feito que para os brasileiros é, ao mesmo tempo, o mais conhecido e o mais desprezado, a descoberta do Brasil por Pedro Álvares Cabral em 22 de Abril de 1500, ora pois!

Embora lá e cá ainda haja quem acredite naquela estorinha de que Cabral aqui aportou trazido pelas correntes marítimas e pela sorte, prefiro acreditar que o buraco era bem mais embaixo (ou a onda mais acima, com o perdão do trocadilho!) Em meio à acirrada competição naval travada por potências como a Inglaterra, a Holanda e a própria Espanha, que bancavam a expansão de seus reinos na busca de riquezas capazes de lhes garantir a supremacia econômica e territorial, fica difícil aceitar que uma empreitada de tal monta, uma expedição marítima que envolvia centenas de homens, dezenas de embarcações e vultosos recursos, pudesse ser tratada com a displicência que alguns críticos sugerem. Parece improvável que o destino da viagem de Cabral tivesse sido planejado para ser a Índia, e que, em meio a uma severa tempestade, conduzido pelas correntes e impulsionado pelos ventos, ele acabasse aqui, em Porto Seguro, na costa brasileira, assim, por mero acaso! Há uma explicação bem mais razoável: uma empreitada desse porte, naquela época e pelas razões acima apontadas, revestia-se de tal importância que não passaria despercebida à análise dos observadores estrangeiros. Seria quase impossível manter em segredo os objetivos da expedição, e corria-se o risco de perder a corrida para as nações concorrentes. A saída encontrada foi uma espécie de ação de contra espionagem, uma nuvem de fumaça. A estratégia foi divulgar que Cabral teria como missão a tentativa de chegar à Índia pelo Ocidente, pois a rota oriental já havia sido estabelecida três anos antes pelas naus de Vasco da Gama, e por isso a tentativa de Cabral não levantaria suspeitas e despistaria os eventuais espiões inimigos. Enquanto isso, as especulações de que haveria vastas terras a Ocidente eram sorrateiramente consideradas e analisadas. Havia muitos interesses em jogo e a coroa portuguesa não podia arriscar-se a perder essa aposta. Guardadas as devidas proporções, era como se nos anos sessenta do século passado, Estados Unidos e União Soviética disputassem a corrida espacial, enviando sinais trocados um ao outro, escondendo o jogo para ganhar a preciosa vantagem de largar na frente.

Dito isto, não vejo demérito nenhum na proeza, sim proeza, lusitana de descobrir o Brasil em 22 de Abril de 1500. Para ser franco acho que todos os brasileiros que não sejam indígenas ou seus descendentes, deveriam ter orgulho em comemorar essa data. Afinal todos ou outros brasileiros, sendo filhos das sucessivas ondas de colonização, de certa forma, descendem dela! Pois não é exatamente o que se vê. Na maioria das vezes o que emerge nesse período é certo desprezo, um constrangimento velado, como se fosse vergonhoso comemorar o nascimento da nação, ainda que na forma administrativa de colônia! Isso não passa de um rematado disparate e uma afronta ao bom senso. Para confirmar minha percepção basta notar que nem é feriado no Brasil! A festa é comemorada de véspera numa reverência a Tiradentes, um herói cujos feitos, segundo alguns historiadores, ainda estão envoltos em penumbra e carentes de confirmação. Mas não é preciso diminuir os méritos do herói mineiro em favor do aventureiro português. Não se trata do “nós contra eles”, prática corriqueira nos dias de hoje como plataforma política do partido que nos governa! Apenas não culpem o Cabral ou os portugueses pelos males que assolam este país há décadas, pois isso é quase imoral! Pelas mesmas razões não precisamos escolher entre a epopeia do descobrimento e a luta, legítima, pela independência do Brasil colônia! Seria uma escolha sem sentido, e ignorar isso é dar guarida a um estelionato histórico, é desprezar o contexto para acalentar um sentimento deslocado no tempo. Não se podem julgar fatos históricos com o binóculo focado no presente. Analisar sim, julgar jamais! Respeite-se a linha do tempo ou comprometeremos a legitimidade dos argumentos!

A consequência mais perversa dessa miopia, dessa gincana moral, dessa vergonha envergonhada, é que deixamos de dar a César o que é de César. O brasileiro parece querer inventar desculpas para desdenhar suas origens, e, ao permitir-se esse exercício de negação, alimenta a ambiguidade de uma relação de amor e ódio com seu passado. Vai criando um vácuo patriótico, um ilusionismo histórico que só serve para retardar o reconhecimento de um legado que deveria servir para impulsionar o futuro. 

Mas esse comportamento não é unânime. Felizmente ainda há quem não precise ignorar a história para sentir-se orgulhoso de ser brasileiro. Aqui, em Porto Seguro, terra mater do Brasil que conhecemos, a população comemora o 22 de Abril com uma semana repleta de atrações culturais, históricas, musicais e esportivas, numa demonstração de que é possível conviver com o sentimento do orgulho cívico da brasilidade, sem desprezar a importância da origem. Aqui é a terra onde Cabral é muito bem-vindo há 515 anos. Aliás. o exemplo de Porto Seguro é de uma clareza constrangedora, mas não é só isso. Numa apropriação pragmática do que o turismo é capaz de fazer para aproximar os povos e promover a paz, o atual secretário de cultura e turismo, Humberto Nascimento, político hábil e empresário de sucesso, investe com convicção no reposicionamento do Destino através do resgate do seu acervo histórico. A estratégia, carregada de simbolismo, parte da premissa de que nenhum outro município do país pode usar o Descobrimento como diferencial competitivo para atrair turistas. Está certíssimo. Afinal, você já se perguntou por quê Porto Seguro, um dos destinos mais desejados do Brasil, recebe tão bem seus milhares de turistas a cada ano? A resposta é bastante óbvia: além de contar com a simpatia de seu povo, pode usar a seu favor o acúmulo de experiência. Afinal, estamos falando de uma cidade que recebe turistas desde 22 de Abril de 1500!

E você? Vai esperar o quê para visitar este paraíso? Que Cabral te faça o convite pessoalmente? Não precisa tanto, basta ler o primeiro folder promocional que esta terra produziu, e que ficou mundialmente conhecido como a Carta de Pero Vaz de Caminha, que você vem correndo, ora pois!

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