Mercado & Eventos
Rui Carvalho
Não concordo com uma palavra do que dizeis, mas defenderei até à morte o vosso direito de dizê-lo
François Marie Arouet – Voltaire
03
dezembro
2013

Servindo A Dois Deuses!

escrito por Rui Carvalho
Estou no Turismo há trinta e seis anos. Os últimos quinze dedicados ao instigante segmento do Marketing de Destinos através dos Convention Bureaux. Em 1999, movido pela mais genuína curiosidade comecei a me perguntar de onde vinha esse nome "convention & visitors bureaux" (grafado assim no plural, com x, por ser palavra de origem francesa). Sempre que perguntava a quem já trabalhava no setor ouvia a mesma e conformada resposta: "não sei direito, mas parece que o primeiro foi o bureau de São Paulo". Confesso, era duro de engolir. Minha lógica linear lusitana desafiava-me com a pergunta que não queria calar: "se o primeiro foi o de São Paulo, porque o nome é em inglês?, ora pois!". Foi o que bastou para correr para a internet e empreender a busca que me levou a Detroit. Entrei em contato com os colegas daquela cidade americana e recebi de volta um longo fax com documentos históricos que contavam a saga do que foi a fundação e o desenvolvimento do primeiro CVB do mundo, em fevereiro de, pasmem, 1896!!! Adorei os detalhes da história, traduzi, redigi e passei a contá-la Brasil afora, entusiasmado. Encontrei sempre ouvidos ávidos, olhos brilhando, acenos de assentimento. Percebi que a preguiça (ou a falta de curiosidade, vá lá), haviam impedido que essa informação tão elementar chegasse até àqueles que, no Brasil, quase um século depois, lhe deram continuidade. Não os culpo. Levar adiante as propostas de um convention, tendo que lidar com mal disfarçadas vaidades pessoais, com exagero de expectativas, e com a constante esgrima entre concorrentes sentados à mesma mesa, é um trabalho insano, desgastante e que não costuma deixar tempo para mais nada. Não me importei. Dei de ombros, escrevi um livro e segui em frente na minha cruzada. Talvez por ter tido (quase) sempre uma vida familiar muito próxima da extinção, encontrei tempo (e motivos) para dedicar-me "à causa". Virei peregrino, palestrante, consultor, especialista, autor bissexto. Valeu a pena? Está aí uma resposta que ainda não sei dar. 

É claro que já tive muitas alegrias, trabalhei com alguns bons colaboradores, conheci empresários de valor, visionários, inspirados e inspiradores da causa, e dispostos a doar seu tempo, de graça e desinteressadamente, às cidades onde mantêm seus negócios. É raro, mas acontece. Tive a sorte de ter trabalhado por oito anos com um desses empresários, o Antônio Dias, de Campinas, na época à frente do CVB local. Sempre teve um comportamento exemplar, com uma visão bastante abrangente e estratégica sobre o mercado e sobre o que deveria ser a atuação de um CVB. O fato de dedicar parte de sua atribulada agenda a um trabalho não remunerado e cheio de percalços, não era fruto apenas de sua bondade. Tampouco podemos dizer que foi ingênuo. Não. Muito pelo contrário. Dias sempre soube muito bem onde queira chegar e de que forma lá chegaria. A diferença é que ele optou por fazer isso em equipe, agregando valor à sua comunidade, incentivando seu grupo a adotar as melhores práticas. Desta forma os resultados viriam mais lentamente, mas com muito mais sustentabilidade. Basta uma conferida nas suas realizações como empresário e líder para perceber que estava coberto de razão. Ao longo dos anos que passei ao seu lado construí um razoável conhecimento sobre o setor, um patrimônio tão considerável que tem sido o combustível de minha carreira de consultor, executivo e escritor. Infelizmente ele é exceção e não regra. O fato é que mesmo depois de tanto andar por este país pregando o mesmo sermão ( e Antônio sempre dizia que trabalhar em CVB é evangelizar), ainda me pergunto porquê é tão difícil compreender a atitude de certos empresários que teimam em confundir os CVBx com seus próprios negócios. O que haverá de tão complicado em aceitar que uma entidade que tenta conjugar os interesses de dezenas de empresas concorrentes, não pode ser administrada como se fosse a extensão da própria empresa? Que parte do mantra "aqui não pode haver vantagens pessoais nem informação privilegiada" eles ainda não entenderam? Quanto tempo ainda levaremos para deixar claro que o maior patrimônio de um CVB é sua credibilidade e não o número de associados ou o nome de seu presidente? 

Mas antes os problemas fossem só esses. Há mais entulho a ser removido, ainda há muito que oxigenar os pulmões de nossas instâncias diretivas, lubrificar as engrenagens de nossas formas de governança. Um dos motivos de atrito ainda é a confusão que se faz entre missão e objetivos, entre meio e fim, entre ferramenta e negócio. Por exemplo, a opção de ter um convention trabalhando com foco na promoção do destino está longe de ser unânime. Há muitos empresários ocupando cargos de diretoria nos CVBx, que defendem, geralmente cheios de boas intenções, que o convention deve preocupar-se apenas na geração de negócios para seus mantenedores. Será? Mas de que forma? Para quais mantenedores? Para os que são mais impactados ou para os que são menos? Podemos contemplá-los com as mesmas oportunidades de negócio da mesma forma e com a mesma intensidade? Será mesmo que podemos brandir a espada da isonomia com a certeza de que estamos fazendo o melhor pelo nosso destino? Tratar de forma igual os diferentes não seria uma forma de injustiça? São perguntas demais e escasseiam argumentos sustentáveis, mas uma coisa é certa: trabalhar com foco no desenvolvimento do destino, na promoção da cidade, e focar na geração de resultados para os mantenedores não precisam, necessariamente, ser estratégias excludentes como muitos querem fazer parecer! A razão disso, de tão óbvia, chega a constranger: quando o CVB promove o destino e capta eventos, aumentando o fluxo de visitantes, qualificando o turista, dando a este motivos para permanecer mais tempo na cidade, não estará, definitivamente, proporcionando mais oportunidades de negócio para seus mantenedores? Qual é a dificuldade desse raciocínio? Por que razão temos que optar entre uma ou outra visão? Por outro lado, se nos concentrarmos apenas em gerar resultados diretos para o associado, transformando o CVB num clube de negócios, como querem alguns, não estaremos abrindo mão de colaborar com a ampliação gradual e sustentável do mercado? Não estaremos deixando de contribuir para a consolidação da nossa cidade como destino turístico, ou seja, não estaremos estreitando nossa visão, olhando a parte em detrimento do todo? Não me parece uma atitude inteligente. Os que defendem esse caminho, na minha opinião, deixaram-se seduzir pelo fascínio do imediato, pela estratégia rasa do curto prazo, abrindo mão de uma atuação mais perene, mais madura. Me arriscaria a dizer que quem defende essa linha ainda não aprendeu a conviver com a concorrência de maneira franca, civilizada, de forma a juntar forças em favor da construção de um mercado maior, mais organizado, capaz de distribuir maiores fatias do bolo para cada comensal! Está, em suma, desprezando um dos princípios fundamentais do arcabouço de ideias que deram origem aos CVBx. 

De novo e mais uma vez, é uma pena, um desperdício. Mas desperdício maior é gastar tempo em intermináveis e infrutíferas reuniões, onde o embate de egos e a mais completa ausência de visão estratégica tornam o dia a dia dos executivos de CVB uma dolorosa via crucis de princípios. Como é possível servir a dois deuses ao mesmo tempo? Como pode um profissional, que depende da aprovação desses senhores para manter-se no emprego, defender suas ideias sem ver-se às voltas com o conflito que se forma em sua consciência ao perceber-se preso nessa armadilha conceitual?  De forma ainda mais pragmática, como é possível que se exijam resultados de uma equipe que não tem autonomia para colocar em prática sua tática de jogo? De nada adianta demitir o técnico se o time que não está preparado para ganhar. Não se ganha jogo de futebol, nem com um time de "Neymares", se as regras não são claras e o árbitro só entende de boliche! 

Urge que os CVBx brasileiros profissionalizem suas gestões. Precisamos menos diretores no dia a dia dos CVBx, e mais planejamento como ferramenta de gestão. É preciso seguir o exemplo do SPCVB, que é tantas vezes citado, tantas vezes usado como exemplo, mas raramente copiado em sua forma de governança. Não. Um destino não se consolida nem se promove apenas com um bom orçamento. Se é certo que os CVBx de São Paulo e Rio de Janeiro têm à disposição generosos recursos para suas atividades (pelo menos quando comparados com os demais), isso não se deve à bondade de seus mantenedores. Tampouco esses recursos têm relação direta com o número de associados. O orçamento dos nossos pioneiros só é generoso porque seus associados reconhecem valor no trabalho desenvolvido. A forma de manifestar esse reconhecimento é contribuindo sem desvios e incentivando formas de governança capazes de permitir autonomia administrativa, que gera resultados, que gera confiança e reconhecimento. Simples assim, é a roda da fortuna girando para o lado certo: pra frente. 

Já passou da hora dos CVBx brasileiros abandonarem o amadorismo, serem capazes de, em conjunto com as novas lideranças empresariais que vêm surgindo, apagar as fogueiras de vaidades alimentadas por dirigentes incapazes de compreender a verdadeira natureza do negócio, e imitarem o modelo de gestão implantado pelos pioneiros, São Paulo à frente, dando e exemplo que precisamos. Não consigo vislumbrar melhor forma de prestigiar quem desbravou os primeiros passos desse longo caminho da promoção de destinos. Que tal se parássemos de servir a dois deuses e começássemos a acender velinhas para o bom senso, a racionalidade, o profissionalismo?
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