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Rui Carvalho
Não concordo com uma palavra do que dizeis, mas defenderei até à morte o vosso direito de dizê-lo
François Marie Arouet – Voltaire
23
junho
2015

Só Falta Combinar Com Os Russos!

escrito por Rui Carvalho
Bater em quem está por baixo ou em desvantagem nunca foi uma atitude nobre. Desde pequenos aprendemos a valorizar o fairplay, a temperar as vitórias com uma pitada de altruísmo. Cai bem. É coisa de quem sabe respeitar o adversário, de quem aceita que a vida é um círculo, e que se estamos batendo hoje, poderemos estar apanhando amanhã. Paralelamente, também é da natureza humana, criticar, espezinhar, tirar vantagem de situações favoráveis em detrimento dos opositores. Pois é, o bullying não é coisa nova, muito menos privilégio de adolescentes rebeldes. Não devia ser assim, mas ninguém disse que o ser humano é perfeito, disse? 

Fiz esta introdução para estabelecer o clima que provocou a análise de certos comportamentos que tenho visto, principalmente nas redes sociais, desde que a senhora presidente iniciou seu segundo mandato e revelou a face mais escura de uma política que já deu o que tinha pra dar. Parece que uma deliciosa onda de revanchismo tomou conta no país. Desta vez é a oposição, que passou doze anos acuada, perdida, dando voltas em torno do próprio rabo, que resolveu partir para o "quanto pior, melhor". Desde que o governo passou a fazer tudo aquilo que disse que não faria, tem sido um tal de apontar o dedo, que até parece piada pronta! Esquecemos que treino é treino e jogo é jogo, ou que eleição é eleição e governar é governar. Tanto faz. É claro que os mais alinhados com estas coisas da economia e da política nunca acreditaram numa palavra do que dizia a senhora candidata Dilma Roussef, quando bradava aos quatro ventos: "não vou mexer nos direitos do trabalhador nem que a vaca tussa", pois é, tossiu! Outras vezes afirmava algo como "reformar é coisa de tucano", tentando passar a ideia de que a oposição é que gostava de mudar tudo o tempo todo, mas que ela, não, com ela tudo estava firme e nada seria alterado naquele Brasil de sonho que aparecia nas propagandas do partido. Houve tantas outras coisas que ela disse que não faria e fez, que somos levados a concluir que Dilma parece ter caído de pára quedas no Brasil real. Foi um Deus nos acuda. Chovem críticas de todos os lados, mas calma lá, também não é bem assim! Uma coisa é apontar a incoerência de Dilma,  a distância entre teoria e prática, reconhecer as pedaladas eleitorais que a candidata deu em favor da PresidentA, pois isso só prova o inesgotável pragmatismo político do PT. Outra coisa, bem diferente, é fazer oposição às recentes medidas proclamadas pela equipe do governo, ou criticar sua adoção apenas por serem medidas que, supostamente, a candidata disse que não tomaria. Isso é desfaçatez, desprezo pela política séria. 

Pois é isso que se tem verificado, principalmente nas redes sociais e, o que é pior, nos discursos raivosamente proferidos da tribuna do Congresso Nacional. Mas isso tem nome: hipocrisia e oportunismo. Podemos e devemos criticar Dilma pelo estelionato eleitoral estabelecido no seu discurso de candidata. Mas não podemos nem devemos criticar as medidas técnicas que todos sabemos serem urgentes e necessárias para recolocar o Brasil nos trilhos. São medidas duras, impopulares, algumas ainda insuficientes ou de resultado duvidoso, mas é hipocrisia achar que temos a obrigação de criticá-las só por estarem sendo adotadas por um governo que disse que não as adotaria! Isso é agir na contramão dos interesses do país, é fazer oposição por oposição, é escurecer ainda mais o lado mais escuro da política. Se o PT tivesse perdido as eleições, Aécio teria tomado essas e outras medidas impopulares, pois elas são necessárias, e toda a oposição aplaudiria. A diferença é que ele nunca escondeu isso de seus eleitores, numa demonstração de honestidade eleitoral. Quem acompanha mais de perto as mazelas da economia brasileira, e tem noções básicas de macro economia, sabia que o discurso da candidata Dilma não passava disso mesmo: discurso! Mas também sabia que, qualquer que fosse o eleito, para encontrar o caminho da recuperação econômica do país, precisava tomar as medidas que agora são objeto de crítica! Posso estar sendo ingênuo, e ser acusado de não conhecer os desvãos da política partidária, mas, ainda sei distinguir o que é causa e efeito, o que é discurso eleitoreiro e o que são medidas saneadoras, por mais duras e impopulares que possam parecer. E tem mais: o Brasil ainda vai piorar antes de melhorar.

O melhor resultado que tivemos nestas eleições foi exatamente a queda definitiva da máscara de idoneidade do PT. Percebemos que boa parte do Partido não passa de um grupelho de aproveitadores, capazes de tudo para levar a cabo seu projeto de poder. Isso não pode ser esquecido, e estão aí os inacreditáveis índices de (im)popularidade da Presidente para provar que a maior parte da população aprendeu a lição. Mas agir como muitos deputados da oposição, inclusive do PSDB, que fazem de tudo para sabotar as medidas de ajuste, como se elas fossem o mais completo absurdo, esquecendo-se de que, meses atrás, esses mesmos deputados as defendiam como solução para o país, isso sim, é hipocrisia, é populismo, é estelionato parlamentar! Não será estuprando a razão e o bom senso que tiraremos o Brasil da crise. A política do "quanto pior, melhor", antes um ativo do PT, não pode, em nome da popularidade, tornar-se aceitável da noite para o dia, como se só fosse errada quando professada pelos outros. Ao agir assim, a oposição só prova que não é tão diferente do governo. Ao tentar surfar na onda da insatisfação popular para boicotar medidas de que o Brasil tanto precisa, a oposição está dizendo ao eleitor que não merece o seu voto, e que ninguém em Brasília está preocupado com o futuro do país! Nesse caso, fico me perguntando, depois de tanto lutarmos para que o Brasil tivesse uma chance, tentando eleger um grupo diferente do que ocupa o poder nos últimos doze anos, será que perdemos mesmo muita coisa com a derrota de Aécio? Ao que parece, em Brasília, entra legislatura, sai legislatura, e as coisas continuam iguais. Cada um só defende seus próprios interesses, como se o Brasil se limitasse aos salões suntuosos do Congresso Nacional. Ou seja, é mais do mesmo, o que é uma pena, pois ainda há quem acredite que as coisas podem mudar de verdade. Como dizia Garrincha, agora só falta combinar com os Russos!   


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