Trip & Soul
Marco Aurélio Moura
Costumo responder, normalmente, a quem me pergunta a razão das minhas viagens: que sei muito bem daquilo que fujo, e não aquilo que procuro
Michel de Montaigne
19
setembro
2014

Iran Agora - MERCI IRAN...

A poucas horas de deixar a tão desejada viagem de mais de duas semanas ao Irã, que conclusão chegar?

O que concluir sobre ter parte das minhas férias em um dos países mais mal comentado em todo o Planeta? Quem não vem a mente terroristas, bomba atômica, guerras e ódio a Israel quando ouvem Irã?

Quem não usa até como piada quando falamos mal do PT e nós referimos como partido xiita?

Claro que já saí do Brasil muito bem informado sobre a cultura e costumes atuais dos iranianos para, além de não parecer mais um turista desavisado, mas também por respeito. Repeti várias vezes para amigos que se eu quisesse usar bermuda ou mesmo tirar a camisa num sol de deserto como é aqui no verão, teria ido ao Rio de Janeiro que seria mais perto e mais barato. Pelo menos em relação a passagem.

Cheguei no Irã com muitas informações, mas também com a experiência de já ter ido a vários outros países da região. Claro que quando cheguei no aeroporto fiquei em alerta se seria igual no Cairo, que até antes de você pegar suas malas na esteira já tem taxista tentando pegar antes de você. Mas, para a minha surpresa uma calma. Ninguém desesperado para me vender nada, alfândega rápida para turistas, pois éramos bem poucos. E no meu primeiro contato com as pessoais locais, aonde fui comprar um chip de telefone, já senti uma certa simpatia natural. E nem tinha dito ainda de onde eu era. Foram sorridentes e simpáticos espontaneamente.

Peguei o primeiro táxi e, além de sentir que o taxista não queria me roubar cobrando mais caro, fizemos todo o trajeto do aeroporto até o hotel conversando sobre política de ambas as partes e muito pouco de futebol. E para a minha surpresa, ele sabia muito sobre a política brasileira.

Depois o encontro com um agente de viagens local que tinha estado no Brasil na Copa e voltou apaixonado pelo nosso pais.

Deixar bem claro para os poucos informados, que a cultura e costumes iranianos estão muito longe dos nossos e não apenas pela geografia do Globo. É como sair de seu pais, aonde não pode tirar o chador ou usar roupa curta e justa, e de repente para em frente a uma praia carioca aonde as próprias mulheres estão praticamente nuas. Nenhuma critica a nenhum dos dois lados.

Na agência, fotos do Brasil e enfeites trazidos da Copa. O dono da agência me disse que foram assaltados em Belo Horizonte, mas isso sequer manchou a imagem de um momento único na vida deste grupo de viajantes .

Entrei na agência as 10 da manhã e sai as 18h com quase todos a minha disposição e ainda almoço tradicional iraniano com os donos da empresa.

Depois, de mala pronta de Tehran a Isfahan. Citei que viajar de ônibus no Irã é o maior perigo para qualquer pessoa, mas por ser inusitado. Chega a ser divertido e inusitado. E continuarei fazendo quando voltar aqui.

Ao sair do Brasil, já tinha Tehran, Isfahan, Shiraz e Persepolis na minha cabeça. Na agência acrescentaram Bandar Abbas e Kish, todas ao caminho do sul. Direção ao Golfo Pérsico. Foram mais de 2000 km de chão rodado até a ilha de Kish.

O que pensar de um povo que, cada vez que eu falava que era do Brasil, recebia o melhor e longo sorriso. Sem contar descontos em compras, sucos de frutas gratuitos, sanduíches especiais e serviços VIP.

Voltando em Isfahan, o que dizer de Alborz, Sepehr e Nasim? Que me receberam em suas casas como se eu fosse um familiar próximo? Que ocuparam de seus tempos passeando comigo por toda a cidade. E mesmo depois que eu estava viajando em outras cidades, sempre me ligavam para perguntar se eu estava bem ou precisava de algo?

Comentei com a prima de Nasim, esposa de Alborz, que quase esqueci o meu passaporte no hotel, e ela me respondeu: "Não teria problema Marco, eu iria buscar para você e te mandaria aonde você estivesse..."

Ainda em Isfahan e com essa família especial, ainda fui passear com o cachorro pelas ruas do bairro e ainda dormi pela primeira vez a luz da lua no topo de uma montanha iraniana chamada Sofeh.

E num restaurante que os três cozinheiros fizeram festa quando souberam também que eu era do Brasil e, além de tirar fotos comigo, disseram que o meu sanduíche seria muito especial.

E comentaram sobre uma cidade que já tinham comentado comigo, chamada Abadan, que respiram Brasil. Que quando o Brasil perdeu para a Alemanha a cidade decretou luto de 3 dias e se viam várias pessoas chorando pelas ruas. E que existia mais bandeiras do Brasil do que do Iran nesta cidade.

E o incrível que a nossa amizade começou no meio de uma viagem de ônibus entre Tehran e Isfahan, com um hambúrguer super faturado pelo restaurante da estrada. Mas paguei mais pelo sanduíche e ganhei muito mais com novos amigos que transformaram a minha viagem.

Depois Shiraz. Famosa e bonita. Primeira noite num bairro pouco turístico eu tinha fome, e cheguei num Fast Food lotado. Aliás, aqui no Irá corra para ser atendido porque o povo não respeita uma fila, mesmo eu sendo grandalhão eles passavam na frente... No mínimo divertido...

Sorrisos e caras de espanto quando eu falava "sou do Brasil". Me perguntavam o que está fazendo aqui tão longe? Na realidade o iraniano se sente orgulhoso e feliz quando recebe um turista. Sabe que não falam bem do Irã pelo mundo afora. E ficam felizes com os viajantes como eu que vim pra ver e saber da verdade sobre este povo...

Outra coisa: ficam felizes e animados quando você sabe sobre os costumes deles. E eu vim preparado, sabendo desde a época do Xá antes da revolução islâmica, sobre a guerra de quase dez anos com o Iraque, e sobre as maluquices do ex-presidente Almadinejah. Além, claro, de saber que neste momento o atual presidente Rowani está trabalhando duro para amenizar as sanções impostas pela comunidade européia, liderada pelos EUA. Cheguei sabendo sobre tudo isso e ganhei pontos com eles.

Próximo de Shiraz fica a história Persepolis, com suas ruínas de castelos de importantes reis da Pérsia. E lá conheci um guia que tinha sido da marinha iraniana. E quando ele começou a falar sobre história, eu pedi apenas que falasse dele. E voltamos a falar de política e, claro, aproveitei para perguntar sobre Israel, pra ele que tinha sido um militar. Novamente, para minha grata surpresa, o mesmo não falou nada de mal sobre israelenses. E ainda enalteceu dizendo que na guerra do Irã com o Iraque, foram os israelenses que ajudaram os iranianos com armas.

A partir dali fui para os dois lugares que sequer sabia algo sobre eles: Bandar Abbas, aonde fica o principal porto do Irã, e a ilha Kish. Ambos no Golfo Pérsico.

De cada 9 entre 10 iranianos que eu falava que iria para Bandar Abbas, falavam a mesma coisa: "O que vai fazer lá?" e "É um calor úmido insuportável..." Dito e feito. E 9 de 11 iranianos sobre Kish falavam que era demais e especial...

Todos os comentários foram certos e certeiros. Porém, na tentativa de andar próximo ao hotel, corri para um café com ar condicionado. E neste local 3 rapazes vieram falar comigo, e claro perguntaram de o de eu era. E claro, além da surpresa de me ver ali de tão longe, me convidaram para conhecer a cidade de carro. E lá fomos nós. Hoje ganhei três amigos novos em Bandar Abbas. Mas realmente, muito... mas muito quente mesmo...

E Kish? Então... Uma ilha no meio do Golfo Pérsico, em torno de uns 20 km da costa iraniana e 200 km da costa de Dubai.

Como tenho como lema de viagem viajar por terra... Cheguei na cidade de onde saem os barcos para Kish, depois de uma viagem de 4 horas num táxi comunitário bem velho, com quatro desconhecidos pelo meio de um deserto que castigava até a alma de quem estava andando na estrada. Algo realmente como o fim do mundo. E dentro do carro ninguém falava o mesmo idioma e o motorista insistia em correr nas estradas, quase sempre sem acostamento. E aqui no Irã eles correm e grudam no carro da frente, para que saiam da frente.

Após chegar salvo na travessia da balsa, aguardo um pouco numa sala.

Somos chamados, claro que tudo em farsi, e eu apenas seguia a multidão...

Pegamos um ônibus e chegamos até um barco grande, de dois andares.

Quando entro no barco, um dos marinheiros pede que deixe a mala maior na parte de fora e entre na parte interna do barco apenas com as bolsas de mão... E, no mesmo instante, pergunta de onde eu sou... Quando o mesmo ouve I am from Brazil parou de atender os demais passageiros que estavam atrás de mim e mandou outro marinheiro me acompanhar até o andar VIP, o andar do comandante.

Quando subi ainda peguei o comandante levantando de onde estava deitado, num enorme tapete persa neste andar.

Fui apresentado ao comandante e toda a tripulação veio conversar comigo. Me oferecer chá, frutas... Todos os cuidados possíveis e somente eu no andar junto da tripulação. Claro que neste momento o assunto foi o futebol. Eles falam com um carinho porque a geração deles viveu e acompanhou o futebol arte brasileiro. Citaram Dunga, Bebeto, Ronaldo, Pele , Zico e outros.... Ficaram as quase duas horas de viagem de barco revezando em me dar atenção.... Saia um e voltava outro sorrindo e repetindo Brasil... Brasil.... Pra quem está num lugar a mais de 15 mil km de distância de sua casa e é recebido com um carinho tão grande não tem preço... É de emocionar e amar ainda mais o meu Brasil...

Fim de viagem, novamente fui o primeiro a sair, tipo First Class num avião, e desceram a minha mala maior até terra para o meu conforto. E ainda deram celular para que ligar caso precisasse de algo na ilha...

Kish... um paraíso para os endinheirados e consumidores. Não estou em nenhum destes dois grupos. Conseguia sair rapidamente devido o calor, e logo voltava porque não havia ninguém na rua. E nem na praia. Lá tem a parte da praia para mulheres e outra para homens. Porém vazias, porque estamos no verão por aqui.

Chegada inusitada e saída divertida.

Sim, depois de chegar de barco e com pompas, sai de avião direto de Kish para Tehran.

Quando fui embarcar pela IranAir, li que devido as sanções econômicas a manutenção e os aviões eram mais velhos. E dito e feito: era um avião russo daqueles que você só sabe que existem depois, com a notícia que caiu. Era um MD 8 bem antigo. No interior me deram a saída de emergência, e a porta parecia semi aberta. E o avião lotava.

Preferi pensar positivo e torcer para chegar bem em Tehran.

Logo ao entrar no velho avião, percebi bonitas e simpáticas comissárias. Seria um voo de aproximadamente 1h30.

Quando o avião preparava para subir, para minha surpresa uma das comissárias sentou ao meu lado e me perguntou se eu era um ator. Pois tanto ela como a outra comissária tinham quase certeza que eu era um ator famoso. Disse que não. E ela não soube me dizer com quem eu parecia.

O Avião subiu e esta comissária me atendia antes dos demais passageiros. Mesmo após o jantar, somente eu ganhei café e um prato com chocolates. Está gentileza chamava a atenção de um grupo de umas 8 mulheres que estavam sentadas nas fileiras da frente.

Quando o avião se preparava para descer novamente, a comissária veio e sentou comigo. Tiramos selfie juntos e aterrissamos. Aliás, mesmo neste avião velho foi um dos vôos mais tranquilos e confortáveis que tive.

Avião já no chão e a comissária não levantou nem depois que apagaram as luzes de cinto de segurança. Todo mundo descia e ela ali. Aonde eu fui o ultimo a descer. E quando fui dar a mão a ela para agradecer a mesma disse que não poderia. Costumes locais...

Trocamos telefone e marcamos de nos falar outro dia.

Quando entrei no ônibus que levaria até o saguão do aeroporto, percebi que eu era o alvo de olhares e comentários de todas as mulheres ali presente, devido a atenção da comissária. Não sei se acharam também que eu era conhecido ou pela atenção dispensada pela comissária pra mim em voo.

No outro dia, a simpática comissária me levou para passear no Gran Bazzar e parte da cidade.

Então... O que pensar sobre isso e muito mais sobre o Irã.

Sempre falo que quando não conhecemos algo, nossa imaginação vai além. Quando nos deixamos levar por mídias tendenciosas ou mesmo propagandas negativas por alguém e sequer discutimos a razão, apenas damos continuidade.

Existem sim algumas coisas que não vemos nas ruas mas sei porque me disseram... Que se a mulher não estiver usando direito o chador, com roupa curta, a polícia de costumes leva ela para a delegacia e chama o pai. Mas isso sei porque me disseram. No geral, as cidades iranianas são normais como qualquer outra. Com uma vestimenta ou reza a mais. E comparando com outras importantes cidades no Oriente Médio, aqui no Irá é muito mais organizado que um Cairo ou mesmo um Líbano. Israel não conta porque é muito ocidental.

Ontem a noite, deitado num banco ao pé da torre Millad, cartão postal de Tehran e orgulho dos iranianos por ser uma das mais altas do Mundo, eu pensava que irei embora do Irã com uma visão global diferente. Não somente do próprio Irã, mas do Mundo ao redor. Aprendi aqui em mais de duas semanas que você deve se dar a oportunidade de voltar ao tempo e corrigir os seus conhecimentos. Seja sobre si próprio ou mesmo em relação a um pais ou povo.

Saio do Irã feliz por acertar nas minhas conclusões precipitadas, que eu iria mesmo me surpreender com tanta gentileza iraniana...


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