Trip & Soul
Marco Aurélio Moura
Costumo responder, normalmente, a quem me pergunta a razão das minhas viagens: que sei muito bem daquilo que fujo, e não aquilo que procuro
Michel de Montaigne
13
janeiro
2015

Je suis Charlie também?

O mundo está parado para acompanhar, com preocupação, o que está acontecendo na França. Os noticiários brasileiros abafaram as notícias da Petrobrás e Dilma para destacarem os ataques terroristas em Paris. O que me deixa, um pouco, intrigado é que a repercussão de 17 pessoas mortas no ataque terrorista, na França, teve mais repercussão do que o ataque do Taleban a uma escola, em dezembro último, no Paquistão, que matou mais de 100 crianças. Digamos que a França gere mais mídia ou, talvez o mundo não ligue tanto quando muçulmanos matam muçulmanos? Fica a dúvida, para não levantarmos questões moral e política.

Infelizmente, não tenho uma opinião técnica e de muita vivência, porém nos últimos 4 anos, tenho convivido bastante, em minhas férias, com o povo muçulmano. E, antes que digam que a minha visão é de um turista que não convive com as pessoas locais por muito tempo, já adianto que faço estas viagens por terra e procuro, o máximo possível, conviver com as pessoas dos lugares mantendo um contato bem próximo, usando roupas do local e indo por caminhos contrários e, não os tradicionais usados por qualquer pessoa que seja de fora.

Na minha humilde opinião, porém sincera de sentimentos e, pelo que convivi, digo que não encontrei, no mundo todo, pessoas mais humanas, atenciosas e amigas que o povo muçulmano. É muito fácil para nós que vivemos numa região que se diz moderna, revolucionária e que respeita os direitos humanos, dizer que o outro lado do mundo, aquele que poucos conhecem, na realidade, são todos terroristas e não se respeitam.

A região do Oriente Médio é uma região atacada, não somente internamente pelo seu próprio povo mas, também, pelo ocidente, que se sente superior e prega que o lado de lá não presta.

Hoje, a França se apresenta numa posição de coitada e atacada, mas sequer relembra o que faziam em suas colônias francesas na região do oriente. Lá, escravizavam o povo local e os levaram para dentro de seu país para construir, plantar, colher, enfim, fazer aquilo que o próprio francês não se submetia a fazer. E, agora, a extrema direita se sente invadida por outras crenças e religiões?


Neste período que convivi com o povo muçulmano e quero muito mais, só vi pessoas boas, sinceras, puras e inocentes. Eu era abordado nas ruas do Cairo para tirar fotos com eles. Ou mesmo no Irã, onde se sentiam felizes por ter turistas no País deles. Quando eu falava a respeito da história do Irã, muitos se sensibilizavam. Em pouco tempo se tornavam amigos e me convidavam para conhecer a sua cultura, comidas e locais onde eles frequentavam. Diversão limitada e simples que me deixavam sensibilizado por estar fazendo parte da vida de cada um deles. Me apresentavam como um amigo ou, como um presente que eles tinham ganhado ali com a minha presença. Me questionavam sobre coisas básicas como casamento, festas, sexo, moradia, etc, com a curiosidade normal de qualquer novo amigo.

Na realidade, o País com mais interferência ocidental, hoje, que é a Turquia , foi o único lugar em que me senti inseguro, pois tive uma tentativa de roubo, muito comum no ocidente. Esse é o preço que a Turquia paga por querer ser tão ocidentalizada.

Israel é um caso bem interessante. Não é um País de maioria muçulmana e tem poucos traços da região, mas traz algo que o ocidente não tem mais, que é a segurança e o respeito. Você anda pelas ruas de Israel com a sensação de que nada irá te acontecer, como roubos, sequestros ou assassinatos.

Essa falta de segurança com o básico não acontece somente aqui, no Brasil, onde a insegurança está arraigada no dia a dia, com o povo acostumado com o matar e morrer todos os dias. A própria França, atualmente, é um lugar perigoso, principalmente por roubos. Tenho amigos que tiveram seus carros esvaziado num assalto em um estacionamento de hipermercado a caminho do aeroporto.

Entretanto, este tipo de insegurança você não tem no Oriente Médio. Já viajei mais de 5 mil quilômetros por terra, nestes últimos 4 anos e, em nenhum momento me senti inseguro por roubo. Foram viagens de carro, ônibus, barco, taxi comunitário e em nunca tive algo roubado.

Tem perigo sim, de bomba e, sempre por questões políticas e religiosas. Questões que também não são passiveis de orgulho para nenhum povo. Mas isso vem de uma minoria. De extremistas que usam da política e da religião para os seus próprios propósitos. Desvirtuam as palavras e intenções do Islã para o seu próprio benefício político. Problema gigante de ter religião e política ligados nestes momentos.

muçulmanos muçulmanos
A cada nova viagem pelos países do Oriente Médio, me sinto indo para um outro mundo. Um mundo aonde as pessoas se respeitam, se cumprimentam, não têm medo de elogiar ou mesmo pedir para tirar foto e se expressam livre de rótulos e posições. Literalmente se tornam amigas, oferecem todo o carinho possível e se emocionam nas despedidas e, melhor, não têm vergonha em dizer que estão com saudades e que você é muito importante para elas. No início, ficava surpreso com estas demonstrações e hoje, acabo conversando um pouco mais, contando mais histórias e dando mais atenção, pois é isto que elas querem.

A marcha que aconteceu domingo último, em Paris, não foi para defender a liberdade de expressão, até porque, lá tinham representantes de países que não escondem que desrespeitam esta liberdade. Foi um evento que se mobilizou rapidamente para não dividir o mundo. Para não dar ao terrorista ou mesmo à direita extremista francesa o que eles tanto querem - uma divisão de povos ou, melhor, ao terrorista, provar que ele estava certo, que o ocidente não presta e a ala direita política da França que cada um deve voltar para os seus mundos.

Se encontravam ali de quase braços dados, israelenses e palestinos juntos em prol de um objetivo. Não são apenas muçulmanos os únicos perseguidos na Europa. Judeus também estavam ali presentes na marcha francesa simbolizando que também são reprimidos mundo afora.

Li e assisti entrevistas muito interessantes sobre este assunto. E também li e ouvi muita bobagem, principalmente de brasileiros, pseudo intelectuais que conhecem sobre esta história apenas de suas vivencias em hotéis 5 estrelas, na França, com empregados muçulmanos servindo-os na piscina e nos restaurantes. Antes de sermos levados por uma mídia sensacionalista é melhor parar e estudar para entender estas culturas tão diferentes e tão interessantes.

Depois destas viagens ao Oriente Médio, digo aqui que tive experiências tão profundas em tempos curtos e não penso em mudar de roteiro para os próximos anos e viagens. Não se deve generalizar um povo por uma minoria extremista e política. Quem viaja a um bom tempo deve lembrar que americanos achavam que Buenos Aires era capital do Brasil e na Europa nos perguntavam se aqui em São Paulo ou Rio de Janeiro tínhamos macacos nas ruas. Isso mostra uma ignorância que não podemos propagar e nem acompanhar mas usar de exemplo para não seguirmos da mesma forma.

Numa visão do Oriente Médio para fora, ou dos muçulmanos para nós no ocidente, talvez nós sejamos os terroristas. E digo, que eles não estão totalmente errados se pensarem assim.

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