Trip & Soul
Marco Aurélio Moura
Costumo responder, normalmente, a quem me pergunta a razão das minhas viagens: que sei muito bem daquilo que fujo, e não aquilo que procuro
Michel de Montaigne
09
setembro
2014

Uma viagem iraniana

Minha única aventura real aqui no Irã foi viajar de ônibus. São confortáveis e baratos e alguns, classificados como VIP, têm estrutura igual aos nossos leitos no Brasil. Já começa pela rodoviária que na realidade é um estacionamento de ônibus. As empresas vão parando como se fosse um ponto de ônibus, recolhendo os passageiros e indo embora. Quando peguei ônibus na Síria e Egito era o mesmo modelo.

Em cada ônibus tem o motorista e o rodo moço, seu assistente. Ambos, antes do ônibus sair, ficam chamando mais passageiros gritando o nome da cidade para onde estão indo. No meu caso de Teerã para Isfahan, em torno de 400 km e umas 6 horas de viagem.

O ônibus é todo kitsch, com cores fortes desde o piso até as cortinas. Antes até de sair o rodo moço distribui um saquinho com lanche para os passageiros VIP. Todos claro. Mesmo já acomodados em seus lugares, percebi que ainda existe uma dança das cadeiras dos casais. Casais casados. O motorista vem e pede para alguns casais trocarem de lugar. Não entendi o porquê...

Saimos da estação rodoviária e por longas e movimentadas avenidas até chegar à estrada em direção a Isfahan. Como a poltrona é confortável, tentei descansar um pouco mas a curiosidade falou mais alto e fiquei reparando em cada detalhe da estrada. O costume é buzinar para o carro da frente sair para você passar. Eles não ultrapassam. Somente claro depois de buzinar muito e o carro não quiser sair. Mas todos saem. Simples assim.

Porém, a partir daí a viagem fica tensa. Além das inúmeras buzinadas existe um tranco com o freio já que eles quase grudam no carro da frente em alta velocidade. Além da tensão, você acaba se divertindo com o motorista do ônibus que dirige de chinelo e tenta tirar da frente não só carros pequenos mas, também, caminhões e outros onibus. Alguns caminhões não saem de propósito. Quando resolvem sair ambos buzinam continuamente como se desse para entender os palavrões que estão tentando dizer um para o outro. A viagem continua até que de repente um barulho estranho acorda todos os passageiros, que como eu que insistiam em tentar dormir apesar da tarde ensolarada.

O ônibus parou e o motorista e o seu assistente foram ver que o pneu tinha furado. Desceram, mantiveram o ônibus ligado por causa do ar condicionado, ainda bem. Estas estradas cortam um deserto e por sorte são grandes retas porque essa tensão de buzina sobre os carros em curvas seria bem pior. Depois de quase uma hora continuamos viagem. Tentei ir ver a situação do pneu mas não deixaram. Voltando a estrada, o rodo moço tenta se recompor e volta servir suco de laranja em caixinhas. Bem rústico, sem glamour e bem divertido.

Na estrada, deserto por todos os lados e algumas pequenas cidades. Impressionante que lá no infinito do deserto se tem a impressão de uma cortina de areia. E os prédios das pequenas cidades são como casas de areia também. Todos da mesma cor terrosa.

Finalmente, o ônibus, que não tem banheiro, para em um restaurante de estrada para felicidade geral. Os banheiros são aqueles com azulejo no chão e sem vaso. Ainda bem que aqui também se lava as mãos e com muita intensidade. Chega ser engraçado.

Volto para dentro do restaurante e vejo um balcão que vendem sanduíches. Foi como ver água no deserto, pois eu queria comer um hambúrguer. Estava com fome. No balcão fui recebido com sorriso pelo atendente principalmente por falar que era do Brasil. Sempre repetem nomes de jogadores de futebol quando falo que sou do Brasil. Já na mesa, percebo que sou alvo de olhares dos locais, já que no mínimo sou um estranho no ninho deles. O único turista ali e meio perdido.

Fico atento aos outros passageiros do ônibus pois não entendi quantos minutos tínhamos e quando deveríamos voltar. Uma observação - quando se entrega a mala para colocar no bagageiro, você não recebe nenhum comprovante, ou, seja, vai na sorte de estar lá quando acabar a viagem. Que nada, já fiz uma viagem de 16 horas no Egito, de Luxor a Sharm e sequer mexem na sua bagagem . Até porque a mala do turista acaba sendo mais nova e limpa.

O ônibus volta para estrada e fico acompanhando as pequenas vilas e cidades no caminho. E o deserto nos acompanhando de todos os lados. E o motorista ainda mais agitado devido ao atraso por causa do pneu furado. Depois de 6 horas chegamos a Isfaham. Cidade menor que a capital mas, importante no Irã, pela sua história e turismo. Turismo no Irã é feito pelos próprios iranianos de outras partes do país e, atém mesmo pelos vizinhos de países árabes como Iraque e outros.

Eu já tinha reservado um hotel tradicional na cidade, com boa localização. Mas quando desci do ônibus percebi que dois rapazes que me olhavam no restaurante da estrada e estavam vindo na minha direção. Chegaram e se apresentaram como irmãos e me ofereceram ajuda. Sim. Disseram que viram que o simpático rapaz que me vendeu o hambúrguer no restaurante da estrada me cobrou muito mais. E que o valor era exatamente 10% do valor que paguei. Mesmo com o preço cobrado a mais quando você troca o dinheiro a diferença é muito grande e você continua achando muito barato. Aliás em quase todos os lugares existe o preço para turista e para os locais.

 Sepehr e Alborz, dois irmãos que me ofereceram ajuda e mudaram a minha viagem

Os irmãos Sepehr e Alborz me ajudaram com o taxi e acabamos no mesmo taxi. Me deixaram no hotel e continuaram o caminho deles, sem deixar eu pagar a minha parter. Trocamos telefone e a partir de então se tornaram meus melhores amigos na cidade. Alborz, o mais velho, é professor universitário e casado. Sepehr, mais novo, ainda vive com a família em outra cidade. Estavam com a família visitando o terceiro irmão.

Após me instalar resolvi sair para conhecer a região próxima ao hotel e me deparei com um Bazzar gigante. Bazzar, aqui no Oriente Médio, são várias ruas com inúmeras lojas, que vendem de tudo.

Como estava me sentindo incomodado de estar ainda parecendo um turista resolvi entrar numa loja de roupa e comprar camisas sociais de manga curta e uma calça mais parecida com as usadas pelos locais. Loja lotada e eu não entedia o valor das coisas e ninguém ali falava inglês. Escolhi duas camisas e uma calça e apontei para um senhor no balcão. Só de bater os olhos em mim ele trouxe exatamente o que eu pedi no meu tamanho. Comprei e já sai com a roupa do local me achando um morador de Isfahan. Em outra loja, comprei mais roupas já que os preços eram convidativos, mas de qualidade inferior. E, como não devo voltar com elas para o Brasil, tudo bem.

Por ali, também, encontrei o melhor suco de melão do mundo e umas rosquinhas que muito se pareciam com as que comemos nas nossas padarias. Novamente ao falar que era brasileiro recebia um grande sorriso. Sentei-me em uma escada para comer e apreciar as pessoas e o local. Resolvi então andar um pouco mais quando, de repente, um carro parou para me pedir informação em farsi claro. Imaginem a minha cara de paisagem e felicidade. Felicidade pois tinha conseguido deixar de parecer um turista.

Depois do passeio, já pensando em voltar para o hotel, me dei conta de que não lembrava o caminho, pois as ruas são todas iguais, abarrotadas de lojas e pessoas . Para quem conhece estes tipos de bazares aqui no Oriente Médio sabe do que estou falando, é realmente muito fácil se perder. Pedi ajuda a dois senhores numa das lojas do Bazzar. Como ambos não falavam inglês pediram para eu esperar. Um deles saiu correndo e voltou com um rapaz que falava pouco inglês. Mostrei o cartão do hotel e o mesmo pediu que eu o seguisse. Esperava, apenas, que ele me desse a direção. Mas, não. Andávamos e ele também perguntava para os outros donos de loja aonde era. Foi quando parou numa das lojas e pediu a moto que estava ali estacionada, emprestada para me levar ao hotel.

Isto mesmo. Me levou de moto até o hotel. Lembrando que aqui não se usa capacete e eu ainda estava cheio de sacolas. Me deixou na porta do hotel como se fossemos já grandes e velhos amigos. Fiquei sem ação com a gentileza e só agradeci. A propósito as ruas são muito estreitas para um carro ou moto. Em alguns momentos alguém tem que dar ré para o outro passar.

No dia seguinte, meus novos amigos irmãos me levaram a conhecer Isfahan. Fomos a diferentes pontos da cidade, restaurantes que somente pessoas locais conhecem e quando tinha que comprar ticket para visitar determinados lugares pediam para eu não falar inglês para que eu pagasse o preço de pessoas locais, já que para turistas os valores eram diferentes.

Impressionante o cuidado e atenção que tinham comigo em tudo. Me fizeram experimentar tudo. Algumas comidas, juro, até tentava comer, mas era bem diferente. No almoço, por exemplo, fomos a um lugar bem diferente, onde servem a mesma comida para todos. Tipo uma sopa de carne com batata. Até aí tudo bem. Porém, o ritual é você tirar a carne num prato a parte e picar pão no caldo que fica. Encher de pão picado. Depois de comer esse pão na sopa, volta com o prato da carne e batata e come com pão novamente.

Aqui eles costumam beber tipo um iogurte natural com alguns temperos para acompanhar a refeição. Assumo que não consegui manter a relação com esta bebida. É bem estranha. E mesmo eu, já parecendo um iraniano, com a roupa toda comprada aqui, muitos me olhavam.

Saímos do restaurante depois de fumar narguilé e continuamos o passeio de carro por várias outras partes da cidade e sempre parando em casas de sucos. Os melhores são os de cenoura e melão. Claro que meus novos amigos mudaram a minha viagem. Já não me sinto mais um simples turistas e fiquei à vontade de caminhar sozinho pela região do hotel.

A hospitalidade dos irmão é nota 100. Eles deixaram os familiares que os visitavam para me mostrar a cidade e, eu, preocupado com eles por tirá-los da família. Enfim, tudo resolvido. Meus amigos me deixaram em casa tipo 6 da tarde e combinamos de nos encontrar depois da meia noite para ir ver as famosas pontes de arcos da cidade iluminadas. Vieram Alborz e sua simpática esposa, que também estava feliz em me conhecer. E me dizia que o marido já tinha falado de mim, inclusive sobre o hambúrguer super faturado. Andamos por umas duas horas madrugada adentro e me deixaram novamente no hotel.

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No dia seguinte fomos almoçar no restaurante do pai da esposa de Alborz. Isso é quase impossível de acontecer no ocidente. Está atenção e carinho que muitos aqui no Oriente Médio têm com os turistas e, em especial, com nós, brasileiros é de fazer pensar em quem realmente está limitado sobre os seus sentimentos e atitudes. E, eu, aqui, me considerando um verdadeiro iraniano.


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