Trip & Soul
Marco Aurélio Moura
Costumo responder, normalmente, a quem me pergunta a razão das minhas viagens: que sei muito bem daquilo que fujo, e não aquilo que procuro
Michel de Montaigne
20
setembro
2012

atravessando fronteiras

Neste texto eu gostaria de falar sobre atravessar fronteiras por terra em viagens.

O prazer pela travessia começou numa simples passagem entre Argentina e Chile, pela Cordilheira dos Andes. Eu tinha saído de Mendoza rumo a Santiago.

Todo o processo de parar no meio da estrada, descer do ônibus, do carro, do trem, do cavalo ou do camelo e fazer literalmente o check out do país que você está e fazer o check in do novo destino, me fascinou.

Talvez eu goste da adrenalina de poder ser barrado numa fronteira. Talvez eu acompanhe muitos filmes de guerra e goste da situação militar que se encontram estas áreas.

Atravessar uma fronteira aqui próxima como foi essa, foi mega tranqüilo e ainda durante o dia.

Mas ano passado e neste ano eu programei todas as minhas viagens de férias pelo Oriente Médio com travessias em fronteiras. E a idéia de atravessar fronteiras por países desta região digamos que a adrenalina é maior ainda. Pois são destinos atualmente levemente tensos.

Ano passado, fui a Europa e de lá fui a Turquia. Fiz o básico de uma primeira vez na Turquia; Istambul e Capadoccia. E claro todas as cidades turcas que encontrei no caminho da minha viagem entre estes dois lugares. Numa viagem de noite inteira.

Depois da Capadoccia, ainda por terra, o meu destino era a Siria. Sim a Siria, março do ano passado. Ou seja, início dos conflitos que estendem até hoje.

Viagem de ônibus desde Göreme (Capadoccia) com paradas em vários lugares até chegar na fronteira com a Siria. No ônibus acredito, deveria ter no máximo uns 10 passageiros, todos turcos e somente eu, turista, com passaporte de outra cor do grupo.


Chegando na fronteira, o assistente do motorista pedi gentilmente ao jeito dele, o passaporte de todos. Eles fazem isto para agilizar e poder atravessar logo a fronteira e continuar o seu destino, que neste caso era Damasco. Descemos do ônibus atrás do assistente em direção de um guichê para dar a saída da Turquia. Como eu já imaginava, eles carimbavam todos os passaportes e sempre paravam no meu. Além de ser um passaporte de cor diferente, havia uma curiosidade por ter um turista de tão longe entrando na Síria num momento de tensão. E claro, sempre eu era entrevistado e convidado a ir num balcão separado, para explicar a minha viagem. Mas sair de um país parece sempre ser mais fácil que entrar em outro... pois parece que eles querem mesmo te ver longe.

Após ser abordado gentilmente por um militar turco, carimbaram o meu passaporte e fui andando em direção ao guichê agora sírio. Pedindo a permissão para entrar.

Para quem já atravessou uma fronteira por terra, existe um espaço neutro. Você não está em lugar nenhum. Pois saiu de um país e nem entrou em outro.

Enquanto isto neste mesmo tempo o seu ônibus é revistado e toda a bagagem é retirada para que seja revistada também.

Quando de repente, no caminho até o guichê sírio começava uma gritaria em árabe que eu mal entendia, porém me abaixei como os demais. Os dois lados correram para o centro do espaço como se fossem prender alguém. E ninguém falava inglês neste momento, pois também não havia turistas. Começava uma correria de um lado para o outro, quando o meu ônibus simplesmente foi embora. Sim, simples assim. Na realidade até hoje eu não entendi a situação, pois eles procuram disfarçar tudo. E para mim era tudo novidade mas com uma sensação de poder acontecer algo a qualquer momento.


Nesta hora eu estava num estado neutro sem saber para que lado ir. Na realidade eu sabia, que entraria na Síria de qualquer forma. Eu sabia também que corria o risco deles fecharem a fronteira para turistas e eu ter que voltar para a Turquia.

Eu já tinha o meu visto da Síria que eu tirei em São Paulo. Que aliás foi um erro total. Pois o visto é igual ao americano que usa toda a página do passaporte. E com isso todos os países que você chega, eles já percebem logo esse visto. E digamos que você começa a ser questionado por ter viajado para aquela região. É impressionante. Nesta mesma viagem ainda na Europa eu fui convidado a ir numa sala em Amsterdam (que para mim é um dos aeroportos mais fáceis de entrar na Europa) e explicar o que eu iria fazer na Síria naquele momento. Sim, março do ano passado, a Europa já estava preocupada com os conflitos que se estenderam até este momento.

Cheguei no lado sírio e mesmo com o visto fui entrevistado por todos. E como eu tinha o visto, não me negaram a entrada. Porém me perguntaram o que eu fazia naquela região e naquele momento. Expliquei que tinha amigos e que depois eu iria para o Libano que era logo ali perto.

Consegui entrar na Siria, porém como eu iria para Damasco? Pois o ônibus não quis me esperar. Pelo menos deixaram a mala. Agora a pergunta. Como eles sabiam qual era a minha mala? Foi a pergunta que eu me fiz quando vi a mala na calçada ao lado de onde o ônibus estava parado. Primeiro, eles sabem, pois precisam saber quem estão transportando e o que levamos. E depois pelos tipos que tinham no ônibus a minha mala era a mais nova e apresentável.

Depois de efetivamente entrar na Síria, eu precisava ir para Damasco. Eu sabia por um amigo, que existem lá os “service”. Serviço de taxi comunitário. Ali eu peguei um táxi, com mais 3 pessoas estranhas falando apenas em árabe vindas desde o sul da Turquia em direção a Damasco e viajei por mais algumas horas até a capital Síria.

Paramos algumas vezes na estrada em postos de gasolina e até em mesquitas em determinados momentos.

Já na Síria, tudo era escrito em árabe e como eu não entendo nada, simplesmente eu acompanhava o que as pessoas faziam. Como ir ao banheiro. Eu esperava um dos homens ir até o banheiro para saber qual era o masculino e não entrar no feminino.


A viagem foi até divertida. Pois eles falavam e até conversavam comigo e eu nada. E claro, a palavra chave da minha segurança e simpatia era “Brasil”. Sim o Oriente Médio adora o Brasil, e todos, sem exceção, perguntavam se eu era de São Paulo. Ninguém falava de outra cidade a não ser São Paulo. Abriam um sorriso longo e largo repetindo nomes de jogadores de futebol é claro.

Agora num ponto máximo nesta viagem de carro em território sírio, tocou Michel Teló na rádio do carro. Foi perfeito, pois eu cantava em português e quase virei um cover do cantor.

Depois de algumas horas de viagens chegamos a Damasco. Eu não sou tão crente sobre vidas passadas, mesmo sendo espírita. Eu sou daquele tipo que mentaliza mas com um olho aberto. Desde o momento que eu atravessei a fronteira com a Síria eu não perdia nenhum detalhe da viagem e na estrada. Que aliás não tinha nada. Apenas morros de pedras e mais pedras. Mas aquilo me fascinava de uma forma que eu realmente não entendia.

Até a foto do ditador sírio Bashar al-Assad, você vê espalhada em toda a estrada.

Tudo muito simples, tanto na estrada, como em Damasco. Tudo com a mesma cor ou seja, sem cor nos prédios.

Chegamos no final da tarde e me deixaram perto de uma estação de ônibus aonde eu tinha marcado com um amigo de um amigo para irmos para Beirute. Pois era uma sexta-feira e Beirute é infinitamente mais agitada que Damasco nos finais de semana. E tinha programado em ir para o Libano ainda na própria sexta-feira a noite . Passar o final de semana em Beirute e depois voltar para visitar melhor Damasco e Aleppo.

Cheguei no lugar programado e espero o amigo do meu amigo que era venezuelano e trabalhava na Embaixada da Venezuela em Damasco.

Esperei, esperei e esperei por quase duas horas. E começava a escurecer. E o local não era uma estação como temos por aqui. Era apenas uma rua aonde paravam estes carros taxis comunitários. E alguns ônibus também. Como descer na estação rodoviária Tietê , porém na avenida. Sem um prédio para você recorrer.

Quando já faziam duas horas que o amigo do meu amigo não chegava e eu não tinha um telefone para contactá-lo assumo que fiquei bem preocupado. Eu lembrava da frase de um amigo que esteve na região um ano antes que eu "os sírios são um pouco brutos no começo, mas tenha uma certeza, eles não te roubam". Essas palavras me confortaram e muito, porque eu estava com malas da viagem.

Preocupado não por estar perdido em algum lugar em Damasco, mas porque eu não tinha trocado dinheiro, Eu só tinha Euro, pois se eu iria passar apenas poucas horas na Síria, preferia trocar no Líbano. E as ultimas notas da moeda turca, eu tinha pago o taxi comunitário vindo da fronteira, pois o motorista era turco.

O tempo passou e passou e nada. Resolvi ir direto para Beirute, aonde eu já tinha reservado um hotel para o final de semana.

Damasco para Beirute é em torno de umas 2 horas de carro.

Peguei um taxista, que não era taxista pois tinha um carro normal e fomos procurar a noite uma casa de câmbio para trocar dinheiro e poder pagar o meu transporte até o Libano. Andamos por Damasco por mais ou menos uma hora e meia e o motorista pegou o meu dinheiro e saiu a rua para trocar. Me deu a chave do carro e disse para eu ficar tranquilo que ele voltaria, pois eu estava com o carro dele.

Neste momento eu já estava apenas curtindo o novo momento da cidade.

O senhorzinho voltou, me deu todo o dinheiro já trocado em cédulas sírias. O mesmo motorista se ofereceu para me levar até Beirute, porém não senti segurança no carro que ele tinha. Era um carro muito velho e ainda sem ser táxi. Pedi apenas que me levasse até uma estação de "service". Serviço normal nesta região de táxis comunitários.

Eu poderia sim ter pego um táxi normal em Damasco rumo a Beirute. Mas eu iria perder uma nova experiência.

Chegamos na estação de "service" e correram pegar a minha mala. Pensei neste momento que iria arrebentar a mala, pois puxavam de cada lado até o carro da vez. Neste carro da vez, eles esperam lotar para que possa partir. A tal da estação também, é apenas um grande estacionamento numa área sem muita iluminação.

Após decidirem sobre a minha mala, colocaram no carro da vez. E o motorista deste carro veio e pediu o meu passaporte. Neste momento eu não discutia mais com ninguém, apenas seguia o fluxo. Um dos passageiros do carro falava inglês e me explicou que é normal. Eles pegam o seu passaporte para ver quem estão transportando. Principalmente quando atravessam fronteira entre países.

O carro saiu em direção a Beirute com um lugar sobrando. O rapaz que falou em inglês comigo era mexicano. Morava em Damasco, falava espanhol claro e também um pouco de português. Sim. Para a minha alegria e felicidade. E sentimento de segurança, pois ele me dizia tudo que iria acontecer a partir dali.

Isso já deveria ser quase 9 horas da noite, quando chegamos na fronteira Síria para o Líbano. E novamente o prazer militar de se locomover entre países árabes.

Com a ajuda do mexicano realmente tudo ficou mais fácil. Precisei pagar uma taxa para sair da Síria. E os mesmos procedimentos quanto a saída. Paravam sempre o meu passaporte e me chamavam para conversar. E como eles se sentiam mal de não falar direito o inglês, eles me liberavam antes.

Neste caso, o espaço entre os dois países era um pouco maior, aonde era necessário entrar no carro depois de carimbar a saída na Síria. E mesmo no carro novamente era parados por soldados antes de chegar no guichê libanês. E outra coisa interessante aconteceu. Quando pararam e olharam as pessoas dentro do carro, um soldado me cumprimentou dizendo Brasil... is very nice.

Algum tipo de comunicação entre eles, comentou que tinha um brasileiro no carro e o soldado me cumprimentou muito simpático.

Chegamos no guichê libanês e lá aonde eu achei que seriam um pouco mais amável, foram bastante ríspidos comigo. Me perguntaram tudo aquilo que eu ja estava cansado de responder. Porém eu usei o meu amigo mexicano como tradutor para algumas questões que eles insistiam comigo.

Eu não tinha tirado o visto libanês aqui no Brasil até por uma sugestão do próprio consulado aqui em São Paulo.

Mas foi apenas mais perguntas frequentes em fronteiras. E liberaram a nossa passagem e fomos para Beirute.

No meio da estrada e no escuro o carro parou num acostamento. Completamente escuro. Perguntei ao meu tradutor, ele apenas me disse que como tinha um lugar no carro, eles estavam esperando um quarto passageiro.

A viagem foi tranquila. Paguei um pouco mais para me deixarem na porta do hotel.

Depois do final de semana bem bacana que passei em Beirute, tentei voltar para a Siria e eles tinham fechado a fronteira para turistas. Só deixando sírios ou mesmo libaneses de livre acesso.

Com isso tive que ficar mais tempo em Beirute. E claro, pensei em visitar outras cidades no Libano como Byblos e Baalbek. Porém fui informado que estavam sequestrando turistas numa destas cidades, pois é a região do Hezbollah. E tinham pego 12 lituanos. Na realidade eles sequestravam turistas de países que apoiavam na época a guerra da Líbia (2011) ou os conflitos na Síria. E a primeira coisa que eu fiz foi perguntar no facebook se o Brasil apoiava algum destes conflitos. E por sorte estamos ilesos de qualquer situação destas.

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