Vair dar Jacaré - Biografia de Caio de Alcantara Machado
Maria Izabel Moreira Salles
Os livros tem os mesmos inimigos das pessoas: fogo, umidade, animais, clima e seu conteúdo.
Paul Valéry
16
agosto
2021

Da ALMAP à Nova York

No início dos anos 1950, meus queridos leitores, a sociedade brasileira passava por uma profunda transformação. A televisão tinha ocasionado uma grande mudança nos meios de comunicação e no estilo de vida das pessoas, determinando gostos e consumo de novos produtos.

Esse era o momento perfeito para o Caio aterrissar na propaganda. Sem dinheiro suficiente, ele levantou um empréstimo no banco e no início de 1954, junto com um sócio, criaram a Agencia Accar. Como o dinheiro de ambos não era suficiente para ter uma sede própria, Caio conseguiu convencer seus avós emprestarem o porão da casa deles e ali instalaram a Agência. O primeiro trabalho realizado pelo Caio, foi uma revista semanal na qual trazia a programação dos canais de televisão. Foi um sucesso, o mesmo não aconteceu com a sociedade, que durou apenas alguns meses. Como Caio tinha 95% das contas da Agência, desfeita a sociedade, ele montou no mesmo local, a sua própria Agencia, a primeira Agencia de Propaganda 100% brasileira. Nesses dias, Caio já praticava a arte de ver o que não é visto por ninguém e de criar a partir do fio de uma ideia. Portanto, tinha todos os instrumentos para ser um ótimo publicitário.

Sem desanimar e trabalhando como um louco para fazer sua Agência decolar, Caio fez o que mais sabia fazer, passou a visitar todo mundo para apresentar sua Agência. Bom de papo e dono de uma capacidade ímpar de convencimento passou alguns meses aumentando seu raio de ação, visitando amigos, industriais, comerciantes enfim, todo mundo que conhecia e que não conhecia, para apresentar a ALMAP.

Nova York era o destino frequente do Caio, onde ele se atualizava sobre as melhores propagandas feitas no mundo, tanto impressas como para a televisão. Numa dessas viagens, Caio foi almoçar com seu grande amigo, Charles Snitow. Por telefone, o amigo adiantou-lhe que precisava de um grande favor e a voz de Snitow tinha um tom de urgência, que fez com que Caio desmarcasse alguns compromissos para poder vê-lo.

 Caio almoçou com Snitow no Tavern on The Green, Central Park, NY
Charles Snitow era uma das pessoas mais fascinantes que Caio conhecia. E vocês irão concordar que de fato esse homem era incrível. Snitow era uns 20 anos mais velho que o Caio, mas de uma jovialidade invejável. Judeu, filho de imigrantes russos e mesmo tendo se tornado multimilionário, possuía apenas três ternos. Mas, a despeito disso não deixava de ser elegante. Seu nascimento foi tão surpreendente como a sua vida. Ele nasceu na mesa da cozinha do apartamento onde morava sua família, em Hell’s Kitchen, um bairro operário de Manhattan. Durante o seu tempo de estudante na universidade de Cornell, Snitow, desenvolveu uma grande paixão pelo canto. Chegou a cantar no Metropolitan Ópera House de Nova York, e um dos momentos mais importantes da sua vida foi quando cantou sob a direção de Arturo Toscanini.

Snitow abandonou sua carreira de advogado para ingressar no mundo das Feiras de Negócios e se tornou um dos empresários mais bem-sucedidos e respeitados dos Estados Unidos. Criou as maiores Feiras e com a permissão do governo americano, durante a Guerra Fria, criou algumas que muito favoreceram o comércio dos Estados Unidos com os países comunistas.

Quando Caio, finalmente chegou ao restaurante, Snitow já estava na porta esperando por ele. Caio estava feliz, tinha muita coisa para contar ao amigo. Principalmente o fato de que no ano passado, em 1955, a ALMAP tinha crescido o dobro do ano anterior e que ele tinha grandes planos para esse ano de 1956. Mal tinham se sentado à mesa e Snitow já foi falando que ele estava organizando uma Feira Internacional, a US World Trade Fair 1957, Uma Feira gigantesca para mostrar a produção dos países industrializados. A data já estava marcada, seria abril de 1957, e aconteceria ali mesmo na cidade de Nova York. Snitow estava pretendendo convidar 60 países industrializados para exporem seus produtos na Feira e ele precisava que Caio convencesse o governo brasileiro a participar. Snitow, sem dar muita atenção às novidades do Caio quanto a ALMAP, antes que terminasse o almoço disse num tom quase autoritário: “Caio, você tem que organizar Feiras no Brasil, é o negócio do século”. Perplexo com a sugestão do amigo, quase uma intimação, Caio acendeu um cigarro e depois da segunda baforada falou novamente que estava muito feliz com a ALMAP.

Snitow novamente ignorou o que Caio havia dito, e ao discorrer sobre as maravilhas do seu negócio, disse para o assustado rapaz, que uma Agência de Publicidade era uma coisa muito pequena, e nem de longe comparável a uma Feira de Negócios. Acendendo seu charuto cubano, Snitow falou num tom quase professoral: “Caio uma Feira é um instrumento fortíssimo para a promoção de produtos” e num tom definitivo disse: “uma nação para ser considerada desenvolvida precisa promover Feiras e participar ativamente de Feiras no exterior”. Caio despediu-se do amigo reiterando sua promessa e dizendo que ele ficasse sossegado que ele iria virar o Brasil do avesso até conseguir que o Brasil participasse dessa Feira.

A primeira coisa que Caio fez quando chegou de viagem, foi conseguir uma audiência com o Presidente da Republica, Juscelino Kubitscheck. Telefonou para o Rio de Janeiro, para dois dos seus maiores amigos, donos do jornal carioca Correio da Manhã, para pedir a eles que conseguissem uma audiência com o Presidente.

No dia seguinte, Caio estava no Palácio do Catete falando com Juscelino. O presidente o recebeu de braços abertos, demonstrando grande interesse pelo assunto, dando um show de simpatia e simplicidade. Escutou atentamente o que Caio falava e terminou a conversa pedindo que ele reservasse uma área de 3 mil metros quadrados para o Brasil. Levantou-se e estendendo a mão, disse com um largo sorriso: “Meu caro, já está resolvido, o Brasil irá participar dessa Feira”. Juscelino falou que iria encaminhar o Caio ao seu Ministro da Fazenda, José Maria Alckmin, para falarem sobre os custos. Antes que Caio deixasse a sala da presidência, Juscelino o fez prometer que ele seria o responsável pela delegação brasileira que iria participar da US World Trade Fair Naquele momento, Caio estava tão encantado com a facilidade com que tinha conseguido a participação do Brasil, que dar um sim ao presidente, não foi nenhum sacrifício.

O encontro com o Ministro da Fazenda não foi diferente, foi tranquilo e cheio de amabilidades. Caio mostrou detalhadamente o projeto, conversaram bastante e José Maria Alckmin garantiu-lhe que estava tudo acertado, e que a presença do Brasil na Feira estava garantida. Caio saiu de lá nas nuvens. Agora, além da ALMAP, ele tinha pela frente esse projeto pelo qual já estava apaixonado.

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