Vendo do mundo os segredos escondidos
Sergio Junqueira Arantes
Os casos vi que os rudes marinheiros, Que têm por mestra a longa experiência, Contam por certos sempre e verdadeiros, Julgando as coisas só pela aparência, E que os que têm juízos mais inteiros, Que só por puro engenho e por ciência, Veem do mundo os segredos escondidos, Julgam por falsos, ou mal entendidos
Camões, Lusíadas, Canto V
30
agosto
2009

Cruzeiros marítimos prejudicam turismo brasileiro. Até quando?

Causa espécie que uma atividade que viceja ao arrepio da legislação brasileira mantenha-se em ostensiva atividade, sendo até mesmo recebida por nossas autoridades.

Sua empáfia é tão grande que não se peja de contratar o principal executivo da entidade que congrega seus oponentes. Não se envergonha sequer quando apresenta pesquisas adrede encomendadas e ainda assim distorce seus resultados.

Evitamos ser pessimistas, mas no embate resorts versus cruzeiros, a irresponsabilidade governamental acarretará na temporada 2009/2010 sérios prejuízos ao turismo brasileiro.

Vamos aos fatos:

  1. Os hotéis e em especial os resorts são investimentos de maturação de longo prazo que requere recursos vultosos, gerando desenvolvimento socioeconômico e cultural em todas as fases de seu processo de instalação e funcionamento.

  2. Hoje, centenas de empreendimentos estão espalhados pelo litoral brasileiro e, também, no interior do país.

  3. Em muitas localidades, para se instalarem hotéis e resorts tiveram que desenvolver atividades na educação da população do entorno e, muito especialmente, ensinar à família de seus empregados princípios básicos de educação, asseio e limpeza, além de atenderem a rigorosos requisitos ambientais.

  4. Foi dessa forma que formaram uma mão de obra hoje qualificada que já somam cerca de um milhão de profissionais, que trabalham os 365 dias do ano.

  5. E quando chega a alta temporada, outras centenas seriam contratados para atender aos milhares de turistas brasileiros que passariam suas férias em hotéis e resorts nacionais.

  6. No entanto, infelizmente, possivelmente isso não acontecerá, uma vez que para o próximo verão já está anunciado que 18 navios farão cabotagem no litoral brasileiro. Ou seja, 10% mais do que no ano passado, três vezes mais do que na temporada 2005/2006.

  7. A oferta de leitos será da ordem de 600.000, que mantidos os parâmetros dos anos passados, terão ocupação de 85% de brasileiros. Ou seja, mais de 500.000 brasileiros na temporada, mais de 150.000 por mês.

  8. Para atender a essa massa de turistas, os cruzeiros estarão contratando cerca de 3.000 empregados brasileiros. Parece brincadeira, mas não é. A média de funcionários brasileiros é de apenas 175 por navio. Se considerarmos que cada navio hospeda cerca de 30.000 turistas por temporada, teremos uma média mês de 60 passageiros por funcionário, ou seja, um funcionário para cada 30 cabines.

  9. Enquanto isso, nos resorts a média de um funcionário por apartamento.

  10. Para que a dimensão do desastre seja melhor avaliada, vale a pena desenvolver alguns exercícios econômicos financeiros.

  • Considerando-se que na ausência dos navios, 30% de seus passageiros optariam por um resort para suas férias de verão, a temporada de verão da hotelaria nacional teria mais 200.000 hospedes, gerando cerca de um milhão de pernoites.

  • Considerando-se uma média de consumo diário deste hospede da ordem de R$ 350,00 o prejuízo causado ao turismo nacional é da ordem de R$350 milhões.

  • Ainda segundo dados do setor, para atender estes 200.000 hospedes a hotelaria nacional teria que contratar 10.000 novos funcionários. E seria evitada a dispensas de milhares dos atualmente empregados.

  • Considerando-se apenas os resorts, o atendimento desses 200.000 hospedes ocuparia cerca de 50% dos leitos disponíveis em todo Brasil.

Observados todo o acima exposto, é inadmissível que até o momento nenhuma providência tenha sido tomada. Desde que os cruzeiros invadiram os portos brasileiros muito se falou, muito se discutiu, muitas reuniões se realizaram e nada se resolveu.

A cada ano a quantidade de navios cresce e o prejuízo para o turismo brasileiro aumenta. O Ministério do Turismo que deveria trabalhar na salvaguarda dos interesses do turismo brasileiro permanece inerte. Mas a culpa não é só dele. O brasileiro desaprendeu de lutar por causas que não atendam seus interesses mais imediatos. Todos os desmandos são praticados publicamente sem que ninguém reaja. O brasileiro perdeu a fé, não mais acredita em sua capacidade de alterar o rumo dos acontecimentos. As muitas desilusões do passado recente o fizeram descrente. Pior ainda, cada vez mais brasileiros estão com o rabo preso, suas lideranças cada vez mais comprometidas, impossibilitadas, quiçá desinteressadas, de falar, reagir e lutar pelos legítimos interesses nacionais.

Mas não devemos esmorecer. Devemos acreditar que a luta ainda é possível e que é dever de todos lutar por um Brasil melhor. E propor saídas para os impasses criados pelos interesses muitas vezes escusos travestidos de legitimidade.

A exemplo das principais entidades do turismo norte-americano que se uniram contra os desmandos de seu Governo (ver Editorial), é hora da cadeia produtiva do turismo nacional, liderada pela Resorts Brasil, a ABIH e o FOHB trabalhar por uma agenda mínima junto ao Ministério do Turismo e ao Governo Federal, não no sentido de proibir a atividade dos cruzeiros de cabotagem em território brasileiro, mas de uma regulamentação que torne esta atividade legitima e que passe a atender aos melhores interesses nacionais:

  1. A atividade de cabotagem no litoral brasileiro somente deve ser autorizada para navios que permaneçam no país o ano inteiro;

  2. Mais de 50% do quadro de funcionários do navio deve ser constituído por brasileiros, contratados em obediência à legislação trabalhista nacional;

  3. Mais de 50% do material consumido no navio deve ser de origem brasileira;

  4. Toda receita auferida nos cruzeiros deve ser taxada de conformidade com a legislação tributária nacional;

  5. A abertura dos cassinos e free shops em águas brasileiras deve ser rigorosamente fiscalizada, quando ocorrer, severamente punida;

  6. Incentivar a captação de turistas estrangeiros, mediante abatimento da carga tributária;

  7. Descentralizar o embarque dos cruzeiros marítimos pelos principais destinos turísticos nacionais, atendendo no mínimo 12 cidades;

  8. Desenvolver operações casadas, incentivando os passageiros de navios a permanecer no Destino em que irão embarcar pelo menos duas noites.

Sergio Junqueira Arantes

Sergio@ExpoEditora.com.br
Diretor da Eventos News, do Portal Eventos, da Revista Eventos e da Making Of
Titular da Cadeira 1, da Academia Brasileira de Eventos
Vice-presidente da ANETUR - Associação Nacional dos Editores de Turismo
Member MPI Brazil Chapter - Meetings Professionals International
Membro do IBEV Instituto Brasileiro de Eventos

________________________________________

Sua avaliação sobre este Editorial e as demais matérias produzidas semanalmente é muito importante. Mande seus comentários para Sergio@ExpoEditora.com.br

Arquivos
Buscar nos Blogs
O que deseja procurar?
Escritores
Newsletter
Receba as novidades