Vendo do mundo os segredos escondidos
Sergio Junqueira Arantes
Os casos vi que os rudes marinheiros, Que têm por mestra a longa experiência, Contam por certos sempre e verdadeiros, Julgando as coisas só pela aparência, E que os que têm juízos mais inteiros, Que só por puro engenho e por ciência, Veem do mundo os segredos escondidos, Julgam por falsos, ou mal entendidos
Camões, Lusíadas, Canto V
29
janeiro
2013

Somos todos culpados da tragédia de Santa Maria

Infelizmente, mais uma vez observa-se o acerto do dito “depois que ladrão arromba a porta é que se pensa em colocar cadeado”. Todos que militam na indústria de eventos e turismo sabem que a segurança é prioritária. Mas será que na prática, de verdade, essa é uma preocupação prioritária quando realizamos nossos eventos?

   • A verificação de todos os itens de segurança antes, durante e depois do evento é prioridade no checklist de seu evento, pequeno, médio ou grande?

   • Toda sua equipe tem treinamentos periódicos de prevenção e atendimento de sinistros?

   • Em seus eventos, sua equipe tem um programa de integração com a brigada de incêndio do local?

   • Você e sua equipe vistoriam o local do evento antes de iniciar a montagem e antes de iniciar o evento, conhecendo e conferindo todas as condições de segurança do local? Existe um checklist do que deve ser verificado?

   • Em caso de sinistro, todos de sua equipe sabem quais as primeiras providências e quais suas funções/responsabilidades?

   • A legislação específica é diferente em cada cidade. As necessidades variam conforme o local. Você estuda e adequa seu evento para atendimento às determinações e necessidades de cada local?

   • Ambulância, equipe médica e equipamento de pronto atendimento são meros itens obrigatórios ou você sabe para quê servem e onde estão?

   • Toda sua equipe utiliza o seu EPI (Equipamento de Proteção Individual) quando a situação requer? Ela sabe quando deve usar o EPI? Foi treinada para isso?

   • O orçamento de seu evento reserva verba para EHS (Emergency Health Services)? Este item é prioritário, ou é o primeiro a ser cortado nas ‘adequações do budget’?

   • Quantas vezes sua equipe foi treinada no uso de extintores de incêndio, sabendo em que circunstância deve usar este ou aquele equipamento? Antes do evento, sua equipe vistoria, procurando memorizar a localização dos extintores?

   • E as portas de emergência? A tendência dos participantes em caso de sinistro é procurar a porta pela qual entrou, que certamente não suportará o afluxo de todos. Sua equipe sabe onde ficam as portas de emergência e como fazer para conduzir parte do público para as mesmas?

   • O seu MC tem instruções em caso de sinistro?

   • A manutenção dos espaços é fundamental para segurança dos participantes. Quais os critérios de sua empresa para conferir a manutenção dos espaços em que faz seus eventos?

   • Até criancinha na escola infantil faz simulações de incêndio e outras emergências. Quando você fez a última simulação de emergência em um evento ou mesmo em sua empresa?

   • Teatros e cinemas, sem receio de espantar seus usuários, dão orientações sobre equipamentos de segurança e portas de emergência no início de cada sessão. Quando foi a ultima vez que você fez isso em seu evento?

   • E se mesmo com todas essas preocupações algo der errado, o seu seguro cobre os diversos sinistros que podem ocorrer em seu evento?

Militando há quase 20 anos na indústria de eventos e turismo, lamento dizer que raramente participei de eventos em que poderia afirmar que as preocupações acima fossem a tônica. Parece-me que todos (clientes, agências, organizadores, espaços, governo) pensam que isso é problema dos outros. “Meu negócio é fazer o evento. O resto é problema do espaço (que tem obrigação de prever tudo, fazer manutenção etc.), do organizador ou da agência (que deve estar atenta a todos os detalhes e tomar todas as precauções) ou do governo (que deve legislar corretamente, fiscalizar, negar alvará para locais inadequados etc.), do cliente (que deveria exigir a máxima segurança em seu evento e dispor-se a pagar para tê-la) etc.”.

É o jogo do empurra-empurra, afinal, todos acham que ladrão só entra na casa dos outros. Sinistro é coisa de televisão ou, no máximo, do evento dos outros. Desde a tragédia de Santa Maria, estas e muitas outras perguntas vêm martelando minha cabeça. Penso em cada evento de que participei e, principalmente, nos que organizei e me pergunto se pensei e tomei todas as precauções acima listadas. E me assusto com as respostas. Não gosto do retrato de omissão e negligência resultante.

SOMOS TODOS CULPADOS DA TRAGÉDIA DE SANTA MARIA. Afinal, ela é fruto da omissão e da negligência que é parte de nosso dia a dia. Ela aconteceu no Rio Grande do Sul, mas poderia ter acontecido em qualquer parte do país, pois são raríssimos os locais e empresas que podem afirmar, com todas as letras, que, em seus eventos, segue a cartilha do começo ao fim, rigorosamente.

Hoje estamos de quarentena. Nos próximos dias, todos os olhos e toda atenção (nossa, do governo e da mídia) estarão presentes, atentos. Mas, se nada fizermos, como bem lembrou o José Eduardo de Souza Rodrigues, vice-presidente da ABEOC Nacional, a questão não será se haverá uma nova Santa Maria, mas quando e em que proporções uma nova tragédia se abaterá sobre nossas cabeças. E, aí, só nós restará rezar para que o luto não se abata sobre nós, nossos entes queridos e nossos amigos. Afinal, Deus é brasileiro...

No entanto, se você acha que devemos fazer algo para mudar essa situação, como disse o José Eduardo, vamos “fazer mesas redondas com associados da Abeoc e das outras entidades, com a cadeia produtiva de eventos e de turismo, com as autoridades dos destinos brasileiros, com os clientes, com profissionais da área de segurança” para que a Gestão de Riscos em Eventos passe a ser item obrigatório e prioritário de nossa pratica diária.

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