Viagem de Negócios
Fabio Steinberg
Um jornalismo crítico e independente do setor
20
fevereiro
2015

Achometria, maldita "ciência" nacional

escrito por Fabio Steinberg

Está cheio de gente que quando não tem certeza de alguma coisa, diz que acha. Menos mal se for conversa de bar. O problema é quando isto ocorre no mundo real.

Estes arautos da verdade caminham com firmeza sobre o lodo da ausência de informação. Trata-se de um terreno ideal para que exerçam sua atividade predileta: literalmente “chutar” conclusões, uma triste distorção do futebol, o esporte mais amado do país. É algo que fazem com a maior cara de pau, sem sofrer qualquer tipo de questionamento de um público passivo que acata opiniões pessoais e geralmente ilegítimas embaladas como se fossem leis.

Um dos campos que melhor se prestam à proliferação destas falsas (ou criativas?) verdades é o ecossistema que abriga o universo do turismo e de viagens, tanto de lazer como negócios. O que dizer de um segmento que sequer consegue informar com precisão – seja pelo lado dos empresários ou do governo – quantos hotéis e agências existem exatamente no país? Sim, porque nenhuma associação hoteleira ou de agências de viagens representa a maioria absoluta, mas apenas parte de seu público-alvo.

O que há no mercado são oásis de informação, formados por organizações mais sofisticadas que conhecem melhor que a média o seu segmento. Por exemplo o FOHB, que representa apenas as redes de hotéis (cerca de 30% dos demais possivelmente existentes no país), ou a ABRACORP, que fala em nome de 29 agências de viagens corporativas, de um total de – cinco, dez, quinze mil, cada um decide quantas há, espalhadas pelo país. Por sinal, esta entidade, semana passada, anunciou ter alcançado através de seus associados quase 15 bilhões de reais em receitas no ano passado. Trata-se de um crescimento de 14,5% em um ano de PIB esquálido. Esquecendo por um instante os números absolutos, com certeza alegria de seus proprietários, pergunta-se: isto é muito ou é pouco, e comparado com o quê? É um recorde ou um resultado pífio diante de um potencial de mercado muito maior? Será que sob melhores condições de infraestrutura do país, este núero poderia ser duas a três vezes superior? Como explicar este crescimento? Neste caso também ninguém sabe, e mais uma vez só acha.

Seja no turismo, viagens, ou qualquer outro campo, é impossível planejar sem contar com dados confiáveis. A falta crônica de informações leva ao florescimento de cogumelos sob a forma de especialistas – ou, se preferir, mágicos de quintal. Ou, para os mais pragmáticos, estes personagens deveriam ser tratados como verdadeiros heróis da indústria. Afinal, atuam exclusivamente com base em seus instintos e experiência pessoal, como se fossem pilotos que voam às cegas sem instrumentos e sob intenso nevoeiro. Atrás das nuvens, ou vão encontrar um aeroporto ou uma montanha assassina.

O resultado é o que se vê: um castelo de cartas montadas sobre uma base instável, e passível de ser derrubado diante de um contratempo. E com sua queda, colocar em risco a sobrevivência de toda a cadeia de valor.

Mais textos de Fabio Steinberg em Viagens de Negócios - o blog da mobilidade, ou www.blog.steinberg.com.br

Fonte: www.blog.steinberg.com.br

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