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Rui Carvalho
Não concordo com uma palavra do que dizeis, mas defenderei até à morte o vosso direito de dizê-lo
François Marie Arouet – Voltaire
03
julho
2013

ENSAIO GERAL - Uma crônica da Copa das Confederações em Fortaleza

escrito por Rui Carvalho

Trabalhei onze dias na Copa das Confederações em Fortaleza. Foi uma experiência única, mas posso afirmar: ainda há muita coisa por fazer, muito que melhorar.

Fui escalado por uma das operadoras credenciadas pela FIFA para trabalhar na logística de atendimento aos grupos de um dos patrocinadores. Permaneci em Fortaleza de 18 a 28 de junho, auxiliando no embarque, desembarque e transporte de centenas de torcedores convidados por alguns patrocinadores para assistir três jogos no “Castelão”. Aproveitei para conhecer a logística e a qualidade dos serviços colocados à disposição do cliente. Afinal, estava trabalhando num dos maiores eventos do planeta e não podia desperdiçar a oportunidade de aprender, observar, participar. Fui escalado para trabalhar em vários locais: aeroporto, hotel, estádio, enfim, pude acompanhar o desenrolar de toda a operação. Foi uma aula de logística, mas foi, também, uma lição de despreparo e improvisação. Preciso ressalvar que a competência da operadora para a qual trabalhei, junto com a experiência de um grupo de seus profissionais, ajudou muito a diminuir o tamanho dos problemas. Ainda assim, no que não dependia de nós, constatei falhas lamentáveis.

A primeira coisa que salta aos olhos é que a Copa das Confederações, assim como a Copa do Mundo, não é um evento qualquer! É um evento de incentivo e como tal está concebido e é executado. Ali não há torcedores nem bilheteria, há, sim, convidados, clientes que precisam ser paparicados e que demandam toda a sorte de serviços e atenção. Também fica claro que não é a Copa do Mundo do Brasil, mas a Copa da FIFA NO Brasil.

Mas vamos ao dia a dia: uma grande circunferência em volta do estádio é isolada pelas forças de segurança. Ninguém entra sem credencial ou ingresso nesse perímetro. Pelo menos no primeiro dia, quando fui obrigado a descer da van que me levava ao estacionamento de ônibus do estádio (onde eu deveria dar expediente), por estar sem credencial. Eram dez horas da manhã e eu ia apenas para reconhecer o terreno e melhor poder orientar a chegada dos torcedores do meu grupo quando da chegada deles para o jogo, por volta das 14h00. Não houve jeito de convencer o brioso tenente da Força Nacional. Nem o chamativo uniforme que eu vestia serviu para amolecer o bravo militar. O jeito foi improvisar. Eu precisava estar no estacionamento E12A e não havia a mais remota hipótese de obter uma credencial àquela altura. Afastei-me da barreira e, depois de um par de horas, escondi-me no bagageiro do primeiro ônibus da nossa empresa que chegou com torcedores. Passei e ocupei meu lugar no estacionamento para orientar a chegada dos mais de 15 ônibus que trariam nossos clientes. A atitude do oficial, ao não permitir minha passagem, uniformizado e a trabalho, até o estacionamento do lado de fora do estádio pareceu-me excesso de zelo! Talvez não fosse, mas pareceu. Enfim, entendi que a questão da segurança era fundamental, embora, de certa forma, tivesse havido uma falha grave ao permitirem a entrada de um “clandestino” escondido no bagageiro. Começava a aparecer o amadorismo, o improviso, o desencontro de informações. Os policiais entravam em cada van ou ônibus, pediam para que os clientes exibissem seus ingressos e só depois liberavam a passagem do veículo. Nesse cenário é indesculpável que não tenham revistado o bagageiro, que tem espaço suficiente para abrigar dezenas de torcedores descredenciados como eu! Um a zero para a falta de segurança.

No jogo seguinte, a bordo de outro ônibus que levava 42 passageiros com ingresso, o policial sequer se deu ao trabalho de pedir minha identificação ou credencial. Também não a tinha, mas resolvi arriscar. O militar entrou, pediu que cada um exibisse o ingresso e desejou a todos uma boa tarde e um bom jogo. Educadíssimo, mas relapso. Prosseguimos em direção ao estádio e eu fiquei pensando na falta de padronização. Um dia não se passava sem credencial, no outro a mesma não era solicitada. Dois a zero para a falta de segurança.

Nesse dia resolvi ousar. Junto com uma guia devidamente credenciada acompanhei o grupo até à catraca onde eram colocadas as pulseiras e exibido o ingresso. Havia uma cancela de vai vem que servia de passagem para quem estava com credencial e foi para lá que me dirigi. Dando instruções aos clientes de longe, como se estivesse ocupadíssimo com a orientação dada a eles, adentrei o recinto apenas com a cara (de pau) e a coragem, não dando atenção à funcionária da FIFA que tentava exigir minha credencial. Eu gesticulava e falava de longe com os passageiros, orientando-os a buscar a pulseira e apresentar o ingresso, enquanto pedia que a funcionária da FIFA aguardasse um segundo que eu já me identificaria. A tática era não deixar ela falar, ir avançando em direção ao elevador, juntando o grupo à minha volta para seguir na direção do camarote. Deu certo. Em cindo minutos, e sem que ninguém me interpelasse, eu estava instalado no ar condicionado do camarote do patrocinador, com o belíssimo gramado à minha frente. Ia começar o jogo Espanha x Nigéria e eu mal acreditava que tinha conseguido driblar o esquema de segurança de um evento daquele porte. Durante o jogo ninguém me incomodou, circulei pelos camarotes, sentei nas cadeiras numeradas, passeei pelos corredores internos da área Vip do Castelão. Três a zero para a falta de segurança.

No terceiro jogo, Espanha x Itália não tive problemas, entrei com ingresso e alojei-me numa cadeira ao lado da bandeirola de escanteio do gol da Itália. A visão do campo, qualquer que seja o lugar escolhido, é perfeita e permite curtir o jogo sem maiores problemas. Os problemas, e são muitos, estão fora do gramado e alguns precisam correção imediata. O primeiro deles, evidentemente, é o controle de acesso ao estádio, que apresenta falhas que podem comprometer a segurança dos jogos. O segundo, mais prosaico, mas não menos importante, nos dá uma ideia do poder que a FIFA exerce sobre o país sede. Nenhum dos pontos de venda dentro do estádio, e são muitos, fornece nota fiscal ou qualquer comprovante que comprove o gasto. Para nós, que dependemos dessa documentação para obter o ressarcimento das despesas com alimentação isso causou um prejuízo enorme. Todo o consumo nos dias de jogo teve que ser suportado com nossos próprios recursos. Se levarmos em conta que os preços não são nada convidativos, fica evidente que algo precisa ser feito. Afinal existem leis e o estádio não pode ser terra de ninguém!

Na parte externa do Castelão não havia lixeiras, não havia sombra nem banheiros, não havia qualquer apoio às centenas de profissionais como nós (guias, motoristas, voluntários, coordenadores) para que tivéssemos o mínimo de conforto debaixo daquele sol inclemente de 40 graus. Não custava nada providenciar espaços onde pudéssemos ter o mínimo de conforto durante as muitas horas em que precisávamos ficar ali, em nossos postos, aguardando a volta dos clientes e o retorno ao hotel. Também notei a ausência de um mapa do estádio, qualquer placa que orientasse as pessoas em direção ao portão determinado no ingresso. Quando procurei a assistência de um dos voluntários (aquela mão de obra gratuita que a milionária FIFA consegue aos milhares), só obtive informações confusas e pude perceber a falta de preparo dessa gente. Um deles, a pouco mais de dez metros de uma bateria de banheiros (na marquise externa do estádio) informou que só havia banheiros na área interna, ou seja, fora do meu alcance. Estava errado, claro, pois o que eu procurava estava ali a poucos passos de nós. Mas a culpa não era só dele. Não havia qualquer indicação de que ali funcionava uma instalação com dezenas de banheiros. Uma pena.

O toque bizarro fica por conta dos serviços no aeroporto Pinto Martins. Quando procuramos um armário para deixar as mochilas, já que estávamos prestando serviço no desembarque das 10h00 às 18h00 e precisaríamos guardar nossos pertences, fomos informados que sim, havia os famosos “lockers”, e que a taxa cobrada valeria por um período de 24 horas. A surpresa, porém, foi quando o gentil funcionário nos disse que os armários só poderiam ser abertos uma única vez! Como assim cara pálida? Eu pago por vinte e quatro horas e se precisar tirar ou guardar alguma coisa na mochila durante esse período não posso? Parece evidente que isso precisa ser revisto, pois não faz nenhum sentido. Sabemos que o sistema de chaves utilizado não permite a abertura e fechamento mais que uma vez, mas é claro que isso é um despropósito e precisa mudar.

De forma geral gostei da experiência, aprendi muito, mas saí de lá convencido que precisamos melhorar bastante antes de dizer que estamos preparados para a Copa. Falta de informação, falta de padronização nos processos, falhas de segurança, infraestrutura deficiente e gente mal preparada foram a nota negativa e são itens para os quais precisamos encontrar soluções rapidamente. Os aspectos positivos foram a limpeza da cidade de Fortaleza, que me surpreendeu, o conforto do estádio, e a eterna simpatia do povo cearense, que conseguiu minimizar nossa sensação de cansaço com seu bom humor e carinho. Aplausos também para a equipe com que trabalhei, composta por profissionais de primeiríssima qualidade, com experiência em outras copas, e que, com certeza, dará um show em julho de 2014. Golaço!