Portal Eventos

* Antes de imprimir pense em seu compromisso com o Meio Ambiente

Mercado & Eventos
Rui Carvalho
Não concordo com uma palavra do que dizeis, mas defenderei até à morte o vosso direito de dizê-lo
François Marie Arouet – Voltaire
29
julho
2013

Podemos acabar com a Room Tax

escrito por Rui Carvalho

PODEMOS ACABAR COM A ROOM TAX

No post anterior afirmei que uma parte do setor hoteleiro ainda não consegue enxergar o óbvio: sem dinheiro é impossível captar eventos. Mesmo os que reconhecem essa verdade parecem achar que a responsabilidade de angariar fundos para as atividades de captação não lhes diz respeito. É, no mínimo, muito curioso! O sistema mais usado pelos CVBx brasileiros para sustentar suas atividades ainda é baseado na decrépita e desgastada room tax (taxa de turismo ou tourism tax, como preferem alguns). É um processo através do qual os hóspedes dos hotéis conveniados são chamados a contribuir, de forma voluntária, com um valor simbólico e diário para o financiamento das atividades do CVB local. Em princípio parece justo e tem funcionado relativamente bem em muitas cidades. Mas é também uma temeridade! A maioria dos CVBx que usam esse sistema obtêm com ele de 50 a 90% de seus orçamentos anuais. Convenhamos, para um sistema que funciona de forma facultativa, ou seja, o hóspede só paga se quiser, é um risco que não deveríamos bancar! Como administrar um orçamento que tem até 90% de seus recursos dependentes da boa vontade de terceiros? Mas esse não é o único problema dessa prática. É preciso levar em conta que a implantação de um bom sistema de room tax implica em treinamento constante das equipes de recepcionistas, na produção de materiais gráficos de apoio, na implantação de processos de premiação e metas e no seu acompanhamento, enfim, uma série de atividades que desviam a atenção das equipes dos CVBx do trabalho que deveriam realizar: aumentar o fluxo de visitantes em seus destinos. Ao invés de usarmos nosso talento para captar eventos e turistas, viramos especialistas em arrecadação! Além disso, parte dos recursos precisam ser investidos na manutenção do sistema, criando-se um círculo vicioso que está na origem de boa parte dos sobressaltos dos gestores dos CVBx.

O maior problema, entretanto, está no perigo de desvincular o setor hoteleiro da necessidade de suportar financeiramente as atividades do CVB que contribui para manter ou melhorar suas taxas de ocupação. Embora muitos achem que é a hotelaria que suporta os CVBx com seus recursos, é preciso deixar claro que a contribuição é paga pelo hóspede, e não pelo hotel. Em muitas cidades o hotel sequer paga uma mensalidade fixa, contribuindo apenas com a arrecadação da room tax, ou seja, é um posto de coleta e não um contribuinte de fato. Ora, pergunto: se assim é, por que ainda temos tantas dificuldades em filiar os estabelecimentos hoteleiros às nossas entidades? Porque alguns resistem tanto? Tenho a impressão que temos falhado na missão de sensibilizar o setor com relação à importância do nosso trabalho e aos impactos que ele causa na economia da cidade e, por conseqüência, no caixa dos estabelecimentos hoteleiros. Por mais que os benefícios de um CVB nos pareçam óbvios e indiscutíveis, ainda não fizemos a lição de casa. Com isso estamos prestando um desserviço aos nossos CVBx e ás nossas cidades. Como começar a resolver esse imbróglio? É preciso que todos se sintam partícipes de fato, e isso só se consegue quando a responsabilidade é dividida com todos. Não vejo lógica num sistema que beneficia diretamente um segmento que permanece alheio a boa parte de nossas atividades do dia a dia, achando que a simples contribuição, quando de fato existe, já justifica o usufruto dos resultados. Os CVBx não vivem apenas de contribuições, mas de participação efetiva. Trazer e discutir idéias, assumir riscos e responsabilidades, contribuir com ações concretas e exequíveis, isso, sim, é associativismo. Dar alguns trocados para não ter que meter a mão na massa parece-me uma atitude irresponsável e leviana. Isso é agir como o Pai ausente que acha que tudo se resolve com o pagamento dos mimos do filho. Pai que é Pai tem que participar! Quem paga pensão é provedor, não é Pai.

Entretanto, como não dá para se trabalhar de forma competitiva sem recursos, e como precisamos lidar com o ceticismo de alguns setores, talvez estivesse na hora de assumirmos que, se é aceitável que o hóspede contribua com o desenvolvimento do turismo das cidades que visita, como acontece em centenas de destinos do mundo que têm taxa de turismo obrigatória, e já que nossa legislação não permite esse recurso, então talvez pudéssemos fazer com que os hóspedes contribuam de forma efetiva, por mais que isso incomode alguns puristas. Basta que se embuta o valor da contribuição ao CVB no preço da hospedagem. Precisamos assumir que essa atitude é necessária e vantajosa. Muitos hoteleiros, mesmo entre os que defendem os CVBx, torcem o nariz quando se fala em embutir a contribuição ao Convention na tarifa. Alegam mil dificuldades, fazem gincanas semânticas para evitar o assunto, mas, até hoje, nenhum deles foi capaz de dizer claramente qual a razão que impede o acréscimo de dois reais no valor da diária, ou que impacto negativo isso teria em suas receitas ou políticas comerciais! É preciso combater o cinismo ou teremos CVBx cada vez mais debilitados e impedidos de efetuarem o trabalho para o qual foram criados.

A solução é constrangedoramente simples, mas depende, fundamentalmente, da tomada de consciência dos empresários da hotelaria com relação à importância do CVB. A pergunta a ser respondida é igualmente simples: senhor hoteleiro, você acredita que a sua cidade estaria melhor sem o CVB? Se a resposta for SIM, recomendo uma de duas atitudes: ou se desliga do quadro de mantenedores da entidade, ou se candidata à sua diretoria e mostra ser capaz de fazer melhor. Simples assim. Agora, se a sua resposta foi Não, a cidade precisa, sim, do CVB, então me perdoe a franqueza, mas qual a razão que impede o seu estabelecimento de embutir dois reais em cada diária e repassá-los ao CVB no final do mês?

Como isso se controla? Como seria feito o cálculo? Simples como toda a boa ideia: se o seu estabelecimento tem 100 quartos e se o mês tem 30 dias, então 100 x 30 x 2 reais = a 6.000 reais. Claro, a gente sabe que o seu hotel não tem ocupação de 100%, por isso esse valor é inviável. Pois muito bem: e qual é a ocupação média do seu estabelecimento? 60%? 70%? Muito bem, não vamos exagerar, digamos que não passa dos 50%, ou até dos 40%. Nesse caso, o seu hotel deverá entregar ao CVB de 2.400 a 3.000 reais por mês! A pergunta que não quer calar é: você que administra um hotel de 100 quartos paga quanto atualmente para o seu CVB? Sou capaz de apostar minha reputação que o valor não chega perto do exemplo acima, estou errado? 

Não é impossível melhorar a arrecadação do CVB, é urgente, isso sim! Para podermos cobrar mais resultados precisamos participar mais, contribuir mais. Só falta uma fatia substancial do setor de hotelaria curar-se da miopia que o impede de enxergar a realidade, abandonar a conservadora e rançosa postura hipócrita com relação à room tax, e passar a contribuir de uma forma mais justa, mais eficaz e muito mais fácil. Entre outras vantagens evitaríamos gastos desnecessários com treinamento das equipes, com materiais gráficos para convencer o hóspede, e até com o clima de desconfiança que é comum em muitos destinos entre o CVB e sua base hoteleira. O CASH – Contribuição Automática do Setor Hoteleiro, é um sistema muito mais prático, mais justo e mais fácil de aplicar.

O que falta para implantar esta ferramenta? Falta que os hotéis entendam, de fato, a importância do CVB para a cidade. Para isso, evidentemente, é preciso que os CVBx sejam capazes de mensurar resultados, passem a trabalhar com indicadores capazes de medir o impacto de suas atividades, qualificando-as e quantificando-as. É preciso criar, Identificar e divulgar sistematicamente as oportunidades de negócio e quais foram seus beneficiários, ou seja, trabalhar dentro de parâmetros de desempenho objetivos e confiáveis. Nada tão difícil de executar e implantar. Meu convite é: vamos trabalhar juntos para melhorar uma ferramenta que beneficia a todos e cuja competência na condução de estratégias que visem aumentar o fluxo de visitantes está comprovada há mais de um século? Com a palavra a hotelaria brasileira. Quero ficar rouco de tanto ouvir!