Portal Eventos

* Antes de imprimir pense em seu compromisso com o Meio Ambiente

Mercado & Eventos
Rui Carvalho
Não concordo com uma palavra do que dizeis, mas defenderei até à morte o vosso direito de dizê-lo
François Marie Arouet – Voltaire
12
agosto
2014

O Pior Emprego do Trade

escrito por Rui Carvalho

Ainda em rescaldo de Copa do mundo é difícil resistir à tentação das analogias. Ainda mais que eu sou contumaz, gosto de usar o paralelo entre um convention bureau e um time de futebol, pois permite exemplos bastante didáticos. No meu livro de 2012 usei o recurso algumas vezes, e, para não perder o gingado, vamos lá mais uma vez.

Se há um cargo que guarda muitas semelhanças com o de treinador de futebol é o de executivo de CVB, seja ele superintendente, diretor executivo, gerente, gestor, enfim, não importa. O treinador também é chamado de professor, técnico, burro, incompetente, herói e tantos outros títulos. Ora aqui está mais uma similaridade. Mas afinal o que acontece no dia a dia desses profissionais que justifique tanto a comparação quanto o título desta crônica? Vamos lá: assim como no futebol, o executivo de CVB também sofre pressão de todos os lados, nunca agrada a todos os mantenedores (torcedores), nem sempre comanda de fato o time que pensa comandar, é questionado por todos sobre o esquema tático que aplica, é frequentemente obrigado, por instinto de preservação ou pura chantagem, a adotar esquemas de jogo que lhe são impostos pela diretoria ou associados, e, quando os resultados não vêm, a culpa nunca é dos jogadores ou da interferência dos cartolas. A culpa é sempre do técnico! Mesmo quando perde o jogo por ter cedido à imposição tática dos cronistas esportivos, ou à escalação recomendada pelos dirigentes, todo mundo sabe: a culpa é do técnico. O resultado dessa pelada de quinta divisão é bem conhecido de quem já esteve à frente de um desses times. Até um zagueiro de várzea sabe que há três coisas certas neste mundo: a morte; que Robben corta para a esquerda antes de chutar; e que o executivo do CVB vai perder o emprego se não conseguir driblar a instabilidade dos dirigentes. E uso aqui o termo “instabilidade” na falta de melhor definição para a absoluta incapacidade que a maioria tem para distinguir o convention da sua própria empresa ou negócio, ou seja, a coisa é muito pior, mas deixemos assim, por enquanto.

Em resumo, assim como acontece com o técnico do time que não ganha, independentemente de quem é a culpa, é o executivo que perde o emprego. Após a dispensa, as diretorias fazem um comunicado ao mercado, eivado de hipocrisia, de maneira a não comprometer a possibilidade de encontrar um novo time para treinar, e nem revelar a absoluta falta de visão de jogo dos cartolas. A regra é clara: manda quem pode, obedece quem precisa do emprego! Até aqui, tudo bem, seria mais um caso de incompatibilidade profissional como tantos outros. O problema é que os executivos de CVBx, ao contrário dos técnicos de futebol, podem perder o emprego mesmo quando apresentam resultados incontestáveis, e é isso que determina a desconcertante dança das cadeiras a que estamos submetidos. Isso sem falar no abismo entre os salários de um e de outro, como é óbvio, não fosse isso e a troca de time até teria lá sua graça!

Neste contexto considero o cargo de superintendente de CVB o pior emprego do setor de turismo. Quando deixamos o cargo deixamos para trás mais que um endereço ou um número de telefone, pois como só há um CVB em cada cidade, sair, normalmente, significa deixar a cidade. Fora os transtornos de ordem prática que isso significa, devemos lembrar que mudar de cidade regularmente é mudar de vida. É substituir contatos, é arrastar tralhas atrás de si país afora, é dificultar o surgimento de vínculos afetivos que permitam consolidar amizades, desabrochar amores, criar raízes. Eu que o diga! Há tempos deixei para trás o terceiro casamento e nos últimos oito anos morei em cinco estados brasileiros. Quem aguenta? Quem paga o custo afetivo desse tipo de vida? Quem se responsabiliza pelo passivo emocional? Quando não há justificativa razoável para a demissão, e isso é mais frequente do que seria lícito supor, trata-se quase de assédio moral! 

Mas o maior problema, o suplício supremo, o que nos tira o sossego a cada noite, é a possibilidade de ter que mudar de vida mesmo quando os resultados são comprovadamente bons e tudo indica que, daquela vez, a estabilidade terá uma chance. Nem o sucesso junto aos associados, que pagam a conta afinal de contas, é garantia de permanência. Descobri há muito que essa história de se importar com os mantenedores, com a base, é conversa pra boi dormir, ou, para ficarmos no tema, é jogar pra torcida! Na maioria das vezes os diretores da entidade só se importam com o umbigo, e o umbigo é o segmento em que atuam, seja o receptivo, eventos, hotelaria, e por aí vai. O resto? O mercado, o associativismo, bom, isso é detalhe, é figuração. Perdi a conta de quantas vezes fui dispensado pela decisão de uma ou duas pessoas, numa entidade que representa centenas. Perdi a conta de quantas vezes ouvi de mantenedores “mas o que houve? Estavas indo tão bem, a gente estava tão esperançoso que agora a coisa ia funcionar!” Como é que se explica essa contradição? Nem vou entrar nesse mérito, mas ajudaria se os dirigentes frequentassem um curso para ensiná-los que o CVB não é a empresa deles, e que, como tal, não pode ser administrada da mesma maneira, com os mesmos vícios, com o mesmo personalismo leviano. Lugar de vaidade é no espelho e não na sala de reuniões, catso!

Recentemente dirigi um CVB que embora disputasse o campeonato da primeira divisão, tinha problemas de timeco de várzea. Havia necessidade de muita preleção, muito treinamento, muita concentração, mas, contra todos os prognósticos, conseguimos ficar no G4, agradando à maioria dos torcedores. Apesar disso aqui estou eu procurando outro time para treinar, pois meu contrato não foi renovado! E olha que meu trabalho está longe de poder ser comparado à humilhante derrota de 7 x 1 que recentemente conhecemos! O máximo que eu e o senso comum admitimos é que pode ter sido uma vitória discreta, sem lances geniais, sem apresentar o futebol arte que tanto enche os olhos do público e da mídia. Entretanto, com as regras de jogo que nos impuseram, pelas condições do centro de treinamento que nos colocaram à disposição, com a escassez de craques do elenco que herdei, ficava difícil ganhar bonito. Tivemos que praticar um futebol de resultados, um futebol assim meio alemão, meio colombiano, se é que me entendem!

Não houve erros? Claro que sim, alguns. Poderíamos ter feito mais? É possível, mas improvável nas circunstâncias em que o torneio se desenrolou. Então o que deu errado? Bom, isso é o que estamos tentando descobrir. A discrição com que a troca de técnico foi comunicada à mídia dá uma ideia da complexidade do tema, e da subjetividade a que nosso trabalho, apesar dos resultados positivos, está sujeito. O comunicado faz parte daqueles textos onde se fala tudo e não se diz nada, sabem como é? Mas está tudo bem, como diz o filósofo Luís Felipe Pondé, “só pessoas muito mal educadas conseguem ser sinceras o tempo todo”, por isso viva o faz de conta, vamos todos ser bem educados para que o jogo permaneça empatado e tenhamos mais do mesmo.

O problema desse sistema tático é que aqui está o técnico de novo, com a casa às costas feito caracol, em busca de outro time para treinar. Mas desta vez resolvi endurecer o jogo (com o perdão do trocadilho), e tentar ser feliz em outro esporte. Cansei de CVBx, pra mim já deu. Nosso modelo, na verdade, está esgotado. Para início de conversa o executivo deveria ter sua contratação aprovada pela assembleia geral, e só deveria poder ser demitido por ela. Não é razoável que numa entidade com centenas de mantenedores (patrões), o responsável pela execução das estratégias possa ser demitido por apenas uma ou duas pessoas, isso não faz nenhum sentido! Se trabalhamos para o conjunto dos mantenedores, é lícito esperar que seja esse mesmo conjunto a decidir se estamos no bom caminho, se devemos continuar, ou se há necessidade de correção de rumo, ou, em último caso, de substituição. Como acredito que isso ainda vai demorar a acontecer no nosso modelo, prefiro mudar de esporte enquanto ainda posso. Alguém aí, de outra modalidade, vai me deixar entrar no time? Ou terei que dar uma de Felipão, e, rabinho entre as pernas e voz titubeante, aceitar treinar mais uma equipe onde o técnico é impedido de usar suas habilidades, mas é cobrado como se as tivesse usado? E depois dizem que o Brasil foi humilhado pela Alemanha! Eu que sei! Aff...