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Rui Carvalho
Não concordo com uma palavra do que dizeis, mas defenderei até à morte o vosso direito de dizê-lo
François Marie Arouet – Voltaire
29
março
2015

Um Falso Dilema

escrito por Rui Carvalho

Ouço com muita frequência que o turismo mudou. Pode ser. Mas acho que estamos confundindo causa e efeito. O que mudou, de fato, foram as pessoas e não o turismo. Na verdade mudanças são inevitáveis, e pessoas mudam mesmo e por várias razões. Mudam com a idade e a consequente experiência de vida; mudam conforme as conveniências, pois é preciso sobreviver; mudam até para permanecer iguais!

Tão importante quanto perceber as mudanças, entretanto, é perceber o que não muda. Entra ano, sai ano, e continuamos a discutir os mesmos temas, a olhar nossa atividade pela mesma e surrada perspectiva. Nesse cenário de ar viciado um dos dilemas que mais discutimos é a necessidade (ou conveniência) da participação em feiras, e de que forma fazê-lo. Pois bem, já abordei aqui este assunto, quando defendi que, em determinados eventos, é mais importante perceber e aproveitar as possibilidades de estreitar o relacionamento do que propriamente esperar que negócios se concretizem dentro do estande. Não raras vezes não importa quantos metros quadrados a sua empresa ocupa na feira. Se sua estratégia continua sendo a de distribuir folhetos sem critério, mais espaço significa apenas mais desperdício. O que aprendi nestas quase quatro décadas de participação em eventos é que precisamos rentabilizar nossa presença, e selecionar, com critérios claros, de quais eventos devemos participar e como! Planejar o calendário pode resultar em muita economia, pois permite que se diminuam os custos de participação (passagens com melhor preço, opções de hospedagem mais em conta). Mas isso não é tudo. Muitas vezes o melhor planejamento é ficar bem longe da feira, simplesmente não participar. Minha sugestão é que você identifique claramente seu objetivo e seu público alvo, perceba que há eventos que apenas se copiam uns aos outros e nada acrescentam, e que, por vezes, ter um estande bonito não é garantia de resultado.

Quem trabalha destinos turísticos, por exemplo, pode se dar melhor capacitando canais de distribuição específicos do que expondo belas fotografias numa feira, ou gastar rios de dinheiro em materiais gráficos cujo destino é a lata do lixo. Nesse caso, participar dos workshops das principais operadoras parece ser a decisão mais acertada. A garantia de poder comunicar-se, em ambiente exclusivo e por um tempo determinado, com centenas de agentes de viagens, com certeza é uma ação que traz mais resultado do que distribuir materiais aleatoriamente em meio ao burburinho das grandes feiras do setor. Qualificar a audiência só é possível quando você tem a garantia de poder dar o seu recado de forma organizada e com a atenção do agente de viagens garantida. Não é por outra razão que os workshops das operadoras que optaram por esse formato atraem cada vez mais patrocinadores, e fazem sucesso entre os destinos que precisam falar com esse canal.

Mas isso quer dizer que as feiras são inúteis? Que não precisamos mais investir nos grandes eventos? Claro que não. Entre outras razões pelo simples fato de que os segmentos da atividade turística têm necessidades diferentes, e cada um tem liberdade para traçar sua estratégia. O que a experiência me ensinou, entretanto, é que muitas vezes basta visitar a feira, circular pelos corredores estreitando contatos, ampliando o networking, ao invés de ficar parado num estande à espera que as pessoas apareçam. A não ser que você ofereça algum brinde, ou uma atividade interativa, e isso exige recursos que muitas vezes não temos, é mais produtivo aproveitar a presença de seus fornecedores, parceiros e potenciais compradores, e procurar construir uma agenda de reuniões capaz de resultar em ações concretas para tua empresa ou destino. Numa grande feira, e com um bom planejamento, é possível conversar com tomadores de decisão que você demoraria um ano para encontrar cara a cara pelas vias normais! Aproveite então para garantir encontros privados com executivos das companhias aéreas, diretores de operadoras, jornalistas, enfim, todos aqueles que possam contribuir para o alinhamento de suas metas e objetivos. Minha experiência diz que isso é perfeitamente possível e não exige um grande investimento, a não ser em inteligência comercial e planejamento, claro.

Outra vantagem que costuma ser desprezada por muitos nos grandes eventos, principalmente pelos famosos distribuidores de papel colorido (folders), é a grade de palestras, painéis ou debates. Muitos só se preocupam com a exposição, a feira, e esquecem de participar do lado, digamos, mais acadêmico do evento. É um erro que não compreendo, pois a atualização constante, a troca de ideias com os líderes do setor, ou a possibilidade de ouvir especialistas em diversos temas de interesse, deveria estar sempre no radar de quem precisa manter-se competitivo e atualizado. Não há segredo portanto. Selecionar os eventos de acordo com os objetivos de cada empresa, empenhar-se na ampliação ou manutenção de sua rede de relacionamento, e manter-se atualizado com as tendências apontadas por especialistas parece ser a melhor estratégia, seja qual for a sua opinião sobre nossas feiras e eventos.

O tempo é cada vez mais curto, os custos são pesados, as opções são inúmeras e só nos confundem, mas é possível, sim, aproveitar o melhor de cada feira, sem necessidade de raspar o fundo do cofre! Ser criativo nem sempre significa mudar o que fazemos. Podemos ser criativos fazendo exatamente as mesmas coisas, mas com um novo olhar, separando os fatos dos mitos. Como disse no início deste texto, em meio a tanta mudança há coisas que nunca mudam. Uma delas, por certo, é o bom e velho bom senso.